Ofensiva robótica da Ucrânia muda dinâmica do combate no Donbas
Uma ofensiva surpresa liderada por sistemas robóticos ucranianos no leste do Donbas parece ter revertido mais de um ano de ganhos territoriais russos nos arredores de Lyman, segundo especialistas em segurança. A operação oferece uma visão de como drones e veículos terrestres não tripulados estão assumindo funções cada vez mais relevantes no campo de batalha durante a invasão russa em grande escala.
Batizada de Operação Vivaldi, a contraofensiva começou em maio e vem sendo conduzida pelo Terceiro Corpo de Exército da Ucrânia. Especialistas afirmam que forças ucranianas conseguiram empregar grandes drones bombardeiros e robôs controlados remotamente atrás das linhas russas em torno de Lyman, no norte da região de Donetsk, aparentemente surpreendendo as tropas adversárias.
As forças russas vinham tentando cercar as chamadas cidades do cinturão de fortalezas da Ucrânia, que compõem o território ainda controlado por Kyiv na região. A terceira fase da Vivaldi, porém, recuperou outros 51 quilômetros quadrados, elevando para 176 quilômetros quadrados o território retomado, segundo o brigadeiro-general ucraniano Andrii Biletskyi.
Terceira fase amplia território retomado perto de Lyman
Biletskyi afirmou em 28 de setembro que a fase mais recente dos combates provocou mais de 2.000 baixas russas e resultou na captura de mais de 250 soldados russos. Os números foram apresentados pelo oficial ucraniano no contexto da operação em andamento.
Patrick Bolder, especialista em defesa e consultor estratégico do Hague Center for Strategic Studies, descreveu a ofensiva como um forte revés para a ambição mínima de guerra de Vladimir Putin de conquistar a região do Donbas.
Além de manter detalhes da operação em segredo, conduzir campanhas de desinformação contra a Rússia e organizar durante meses uma operação aérea destinada a interromper suprimentos logísticos para a linha de frente, as forças ucranianas conseguiram controlar o espaço aéreo na área de Lyman, segundo Bolder.
Esse controle teria impedido a Rússia de utilizar seus drones na área. As forças ucranianas puderam então empregar seus próprios drones para lançar veículos terrestres não tripulados atrás das linhas adversárias e atacar tropas russas pela retaguarda sem colocar seus próprios militares diretamente em risco.
Bolder avaliou que a Ucrânia coordenou esses diferentes elementos de forma eficaz.
Novas posições podem dificultar outra tentativa russa
Para o Kremlin, conquistar o Donbas estaria agora mais distante, segundo a avaliação de Bolder. Ele afirmou que as forças ucranianas alcançaram posições mais defensáveis, o que tornaria mais difícil para os russos tentarem novamente avançar na mesma área.
Um porta-voz da Embaixada da Rússia em Londres não estava disponível para comentar quando foi procurado pela CNBC na sexta-feira.
Apesar dos resultados descritos, especialistas em segurança ressaltaram que a ofensiva robótica ucraniana não deve ser interpretada como um avanço decisivo na guerra.
David Kirichenko, pesquisador associado da Henry Jackson Society, afirmou que a operação envia uma mensagem importante tanto para Moscou quanto para os parceiros de Kyiv. Em sua avaliação, ela demonstra que as forças ucranianas, altamente inovadoras, continuam capazes de derrotar forças russas no campo de batalha.
A importância atribuída à operação também foi destacada pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy durante um encontro com soldados envolvidos na contraofensiva.
Zelenskyy quer ampliar emprego de sistemas terrestres robóticos
Zelenskyy elogiou o desempenho do Terceiro Corpo de Exército e descreveu a operação como importante em diferentes aspectos para a defesa da Ucrânia em geral e particularmente para o Donbas.
Em uma publicação nas redes sociais em 30 de setembro, o presidente apontou a substituição de soldados por sistemas robóticos terrestres, sempre que possível, como uma área especialmente promissora.
Segundo Zelenskyy, essa capacidade permitiu realizar diversas tarefas durante a Operação Vivaldi. Ele afirmou que a Ucrânia pretende ampliar seu emprego para que drones assumam com maior frequência as missões mais perigosas na linha de frente em vez dos militares.
A proposta está alinhada ao modo como especialistas descrevem o uso dos sistemas não tripulados na ofensiva de Lyman: não apenas como ferramentas adicionais de ataque, mas como meios para executar operações que anteriormente exigiriam exposição direta de pessoal.
Essa transformação ocorre enquanto a guerra continua também longe da área específica da contraofensiva.
Rússia intensifica ataques contra infraestrutura ucraniana
Nos últimos dias, a Rússia intensificou ataques contra a capital ucraniana e outras grandes cidades, atingindo centros de dados, comunicações e infraestrutura energética.
Esses ataques buscam interromper o fluxo de informações e provocar cortes de energia antes do inverno. Autoridades ucranianas manifestaram profunda preocupação com a ofensiva e afirmaram existir uma necessidade urgente de capacidade para responder rapidamente a ameaças de mísseis e drones.
A Ucrânia, por sua vez, procura elevar o custo para a Rússia de uma guerra que já dura mais de quatro anos e meio. Entre seus alvos estão refinarias de petróleo russas e centros logísticos.
Nesse ambiente, o emprego de sistemas robóticos passou a ocupar uma posição relevante nas operações de contraofensiva ucranianas.
Serhii Kuzan, presidente do Ukrainian Security and Cooperation Center, sediado em Kyiv, considera esses sistemas um dos fatores fundamentais nas atuais operações. Segundo ele, sua utilização reduz os riscos enfrentados pelo pessoal e altera a própria lógica do combate.
Plataformas remotas mudam a lógica das operações
Kuzan explicou que tarefas que anteriormente exigiam dezenas ou centenas de soldados estão sendo realizadas com frequência crescente por plataformas controladas remotamente.
Na avaliação do especialista, a experiência da Operação Vivaldi mostrou que a substituição sistemática de pessoal humano por robôs está alterando o paradigma da guerra moderna. A tecnologia permite executar determinadas tarefas com perdas mínimas de pessoal, segundo sua análise.
A presença disseminada de drones já transformou as condições de combate em diferentes partes da linha de frente. Na região do Donbas, redes antidrones foram instaladas sobre importantes estradas e cidades ucranianas para oferecer proteção contra drones russos FPV, que conseguem operar muito além das posições imediatas da frente.
Alguns drones empregados pelos dois lados utilizam cabos de fibra óptica extremamente finos para contornar interferências eletrônicas. O uso dessas tecnologias contribuiu para transformar o ambiente de batalha desde o início da invasão russa em grande escala.
A Operação Vivaldi acrescenta veículos terrestres robóticos a essa evolução.
Objetivo é recuperar a iniciativa no campo de batalha
Segundo Kuzan, a contraofensiva ucraniana na área de Lyman teve como objetivo assumir a iniciativa militar. Ele considera que esse processo poderia, em última instância, obrigar o Exército russo a abandonar objetivos definidos pela liderança política do país.
Autoridades ucranianas relataram anteriormente que a liderança política russa havia estabelecido como objetivo capturar a região de Donetsk até o fim deste ano.
O Exército russo, entretanto, estaria agora buscando uma extensão desse prazo até março do próximo ano.
Kuzan atribuiu essa mudança à situação nas principais direções de avanço em Kostiantynivka, Sloviansk e Kramatorsk. Segundo informações da inteligência ucraniana citadas por ele, as forças russas estariam sofrendo suas perdas mais pesadas nessas áreas.
O especialista afirmou que essas três direções representam entre 70% e 80% de todas as baixas russas.
Essas estimativas e objetivos são apresentados a partir de autoridades e inteligência ucranianas, enquanto a fonte não fornece uma confirmação russa correspondente.
Operação mostra capacidades sem representar avanço decisivo
A importância atribuída à Vivaldi está menos associada a uma conclusão da guerra do que à combinação de diferentes capacidades em torno de Lyman.
Segundo os especialistas citados, a Ucrânia conseguiu preservar o sigilo operacional, empregar desinformação, pressionar a logística russa durante meses e conquistar condições aéreas locais que limitaram o uso de drones pelo adversário.
Esse ambiente permitiu que drones ucranianos colocassem veículos terrestres não tripulados atrás das posições russas. O objetivo era atacar pela retaguarda enquanto se reduzia a exposição direta dos soldados ucranianos.
O território retomado chegou a 176 quilômetros quadrados após a terceira fase, segundo Biletskyi, mas especialistas evitaram classificar o resultado como uma ruptura decisiva.
A relevância está também na demonstração de como sistemas remotos podem ser integrados a operações convencionais e assumir tarefas particularmente perigosas.
Zelenskyy indicou que pretende ampliar essa abordagem, enquanto Kuzan vê a substituição progressiva de pessoal por plataformas robóticas como uma mudança estrutural na maneira de conduzir operações.
Sistemas não tripulados ganham espaço na guerra
A ofensiva em Lyman mostra uma Ucrânia buscando combinar drones aéreos, veículos terrestres não tripulados, operações de informação e ataques contra linhas logísticas para alterar condições locais do campo de batalha.
Para Bolder, as posições agora ocupadas pelos ucranianos são mais defensáveis e podem dificultar novas tentativas russas de avançar no Donbas. Para Kirichenko, a operação demonstra capacidade de inovação e envia uma mensagem a Moscou e aos parceiros de Kyiv.
Kuzan enfatiza outro aspecto: a redução da necessidade de expor soldados diretamente em determinadas tarefas. Em sua avaliação, plataformas remotamente controladas estão substituindo grupos maiores de militares em funções específicas.
Ainda assim, os especialistas citados não apresentam a Operação Vivaldi como um resultado definitivo. A Rússia continua atacando cidades e infraestrutura ucranianas, enquanto a Ucrânia busca pressionar refinarias e centros logísticos russos.
Nesse contexto, a ofensiva representa uma demonstração de como a tecnologia está modificando operações na linha de frente. Os 176 quilômetros quadrados retomados e os resultados militares divulgados por Biletskyi mostram a dimensão reivindicada pela Ucrânia, enquanto as avaliações dos especialistas destacam sobretudo a maneira como drones e robôs foram combinados para limitar riscos ao pessoal e pressionar forças russas perto de Lyman. A experiência evidencia a diferença entre obter uma vantagem local e alcançar uma mudança decisiva em toda a frente. As avaliações apresentadas concentram-se na área de Lyman e nas capacidades demonstradas durante a operação. Por isso, os especialistas mantêm cautela ao interpretar os resultados, mesmo destacando a recuperação territorial e a inovação empregada pelas forças ucranianas.