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 América Latina cresce 2,3%, mas FMI alerta que dívida e baixa produtividade ameaçam a próxima fase

América Latina cresce 2,3%, mas FMI alerta que dívida e baixa produtividade ameaçam a próxima fase

A América Latina está recebendo uma combinação favorável de preços de commodities, demanda dos Estados Unidos e condições financeiras relativamente positivas, mas ainda não consegue transformar esse cenário em crescimento econômico mais forte.

O Fundo Monetário Internacional alertou nesta sexta-feira, 16 de outubro, que os governos da região deveriam aproveitar a atual janela para reduzir a dívida pública e implementar reformas capazes de elevar a produtividade antes que as condições externas se tornem menos favoráveis.

No novo Regional Economic Outlook, o FMI projeta crescimento de 2,3% para a América Latina e o Caribe em 2026 e de 2,5% em 2027.

As duas projeções foram reduzidas em relação às estimativas divulgadas em julho: 0,1 ponto percentual a menos para este ano e 0,2 ponto para o próximo.

O desempenho também permanece claramente abaixo das economias emergentes e em desenvolvimento como um todo, para as quais o Fundo prevê expansão de 3,7% em 2026 e 4,4% em 2027.

O problema, portanto, não é uma crise imediata.

É a dificuldade da América Latina de aproveitar períodos relativamente favoráveis para corrigir problemas estruturais antes da chegada do próximo choque.

FMI reduz previsão para a América Latina a 2,3%

A nova projeção coloca o crescimento latino-americano em 2,3% neste ano.

Para 2027, a expectativa é de uma pequena aceleração para 2,5%.

Os números indicam expansão, mas continuam modestos quando comparados ao restante do mundo emergente.

O FMI estima crescimento de 3,7% para as economias emergentes e em desenvolvimento em 2026.

Em 2027, essa taxa deve subir para 4,4%.

A diferença significa que a América Latina continuará crescendo mais lentamente justamente quando várias economias asiáticas e outros mercados emergentes ampliam sua renda e capacidade produtiva.

Economia mundial deve crescer 3,1% em 2026

O cenário internacional não é particularmente desfavorável.

O FMI elevou nesta semana sua projeção para o crescimento mundial de 2026 em 0,1 ponto percentual, para 3,1%.

Para 2027, manteve a previsão de 3,4%.

Isso significa que a fraqueza relativa da América Latina não pode ser explicada apenas por uma recessão global.

A região possui, inclusive, vários fatores externos de apoio.

A demanda americana continua ajudando determinadas economias, enquanto preços elevados de commodities favorecem importantes exportadores.

Turismo e remessas também permanecem fortes em diversos países.

Commodities e condições financeiras adicionam 0,6 ponto ao crescimento

O tamanho desse suporte pode ser medido.

Segundo estimativas da equipe do FMI, melhores termos de troca e condições financeiras mais favoráveis acrescentam aproximadamente 0,6 ponto percentual ao crescimento de 2026 de cinco grandes economias: Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.

É um impulso relevante.

Os termos de troca melhoram quando o valor das exportações de um país evolui de forma mais favorável em relação ao custo de suas importações.

Para economias exportadoras de matérias-primas, preços elevados de determinados produtos podem aumentar receitas externas, investimentos e arrecadação.

Condições financeiras mais favoráveis também reduzem parte da pressão sobre empresas e governos.

O problema é que esse apoio pode não durar

Nigel Chalk, diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, chamou atenção justamente para esse risco.

As atuais condições favoráveis de financiamento podem ser temporárias.

Esse ponto é fundamental para países com dívida pública elevada.

Quando investidores internacionais demonstram maior disposição para comprar ativos emergentes, governos conseguem financiar suas necessidades em condições relativamente melhores.

Mas uma mudança na política monetária global, na inflação, nos preços das commodities ou na percepção de risco pode alterar rapidamente esse cenário.

Esperar a deterioração das condições para realizar ajustes fiscais costuma tornar o processo mais difícil.

Dívida pública continua aumentando

O FMI identifica a dívida como uma das principais vulnerabilidades da região.

Apesar do crescimento econômico e do apoio externo, a dívida pública continua aumentando em vários países.

Isso reduz a margem disponível para enfrentar uma futura desaceleração.

Um governo com dívida elevada precisa direcionar uma parcela maior de suas receitas ao pagamento de juros.

Esses recursos deixam de estar disponíveis para infraestrutura, educação, saúde ou investimentos produtivos.

Quando chega uma crise, a capacidade de lançar estímulos fiscais também fica limitada.

Por isso, o Fundo considera que o momento atual deveria ser utilizado para reconstruir espaço fiscal.

Ajuste iniciado em 2025 perdeu força

A preocupação aumenta porque vários países haviam iniciado medidas de consolidação em 2025.

Segundo o FMI, o ajuste realizado foi menor do que o inicialmente previsto.

Em 2026, esse processo praticamente parou em muitas economias.

Isso cria um problema de timing.

Realizar ajustes quando a economia está relativamente estável costuma ser menos doloroso do que fazê-los durante uma recessão ou crise financeira.

Se os governos adiam continuamente as decisões mais difíceis, podem acabar obrigados a agir exatamente no momento menos favorável.

Energia mais cara também pressiona os orçamentos

O choque nos preços de energia adiciona outra dificuldade.

Brasil, Canadá e várias economias do Caribe estão adotando medidas para amortecer parte do impacto dos custos energéticos sobre consumidores e empresas.

Essas políticas podem ajudar a limitar os efeitos sociais e econômicos imediatos.

Mas também possuem custo fiscal.

Subsídios, reduções tributárias ou mecanismos de compensação precisam ser financiados.

Quanto mais tempo os preços permanecerem elevados, maior pode ser a pressão sobre os orçamentos.

O desafio é proteger a população sem transformar uma resposta temporária em despesa permanente.

Inflação deve voltar às metas até o fim de 2027

O cenário inflacionário oferece algum alívio, mas não imediatamente.

O FMI espera que a inflação retorne para perto das metas na maioria dos países latino-americanos até o final de 2027.

Os preços de energia e alimentos foram pressionados pelo conflito no Oriente Médio, aumentando a inflação em diversas economias.

Essa combinação dificulta o trabalho dos bancos centrais.

Se a inflação permanece elevada, reduzir juros rapidamente pode ser arriscado.

Se os juros permanecem altos por muito tempo, crédito, consumo e investimento podem enfraquecer.

O Fundo considera que os riscos continuam inclinados para uma inflação mais alta do que o esperado.

Brasil recebe impulso externo, mas questão fiscal permanece

O Brasil está entre as economias que se beneficiam das atuais condições externas.

Junto com Chile, Colômbia, México e Peru, o país recebe parte do impulso estimado em aproximadamente 0,6 ponto percentual proveniente de melhores termos de troca e condições financeiras.

Mas esse suporte não elimina os desafios domésticos.

O debate fiscal brasileiro continua central para a precificação dos ativos.

Uma economia pode se beneficiar de commodities fortes e fluxos internacionais por determinado período, mas investidores também avaliam a trajetória futura da dívida e o crescimento das despesas.

Se a percepção fiscal se deteriora, os juros de longo prazo podem permanecer elevados mesmo com outros fatores positivos.

Eleição aumenta importância do debate fiscal brasileiro

O cenário ganha relevância adicional em meio à disputa presidencial brasileira.

A dívida bruta do país chegou a 82,9% do PIB após subir mais de dez pontos percentuais durante o atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

A campanha eleitoral colocou novamente o ajuste fiscal no centro das discussões.

Mas as medidas estruturalmente mais difíceis continuam politicamente sensíveis.

Grande parte das despesas federais é obrigatória, reduzindo o espaço para cortes simples.

Isso significa que estabilizar a dívida exige decisões que vão além de reduzir gastos discricionários de curto prazo.

Baixa produtividade é o segundo grande problema

O alerta do FMI não se limita às contas públicas.

A produtividade aparece como outra vulnerabilidade estrutural.

Produtividade mede, de forma simplificada, quanto uma economia consegue produzir utilizando seus recursos disponíveis.

Quando ela cresce, salários e renda podem aumentar de maneira mais sustentável.

Quando permanece estagnada, o crescimento depende mais de expansão da força de trabalho, crédito ou ciclos favoráveis de commodities.

A América Latina possui um histórico de produtividade relativamente fraca.

Isso ajuda a explicar por que a região frequentemente cresce durante períodos favoráveis, mas encontra dificuldade para sustentar taxas mais elevadas por muitos anos.

Poucos países devem se aproximar das economias avançadas

O FMI considera esse problema particularmente urgente.

Segundo Nigel Chalk, poucos países latino-americanos estão atualmente em trajetória capaz de reduzir significativamente a distância de renda em relação às economias avançadas nos próximos anos.

O risco é de divergência.

Enquanto outras economias emergentes ampliam produtividade, infraestrutura e capacidade tecnológica, parte da América Latina pode continuar crescendo em ritmo insuficiente para fechar essa diferença.

Um país não precisa entrar em recessão para ficar relativamente mais pobre.

Basta crescer de forma persistentemente mais lenta que seus pares.

Investimento precisa gerar capacidade produtiva

Elevar produtividade exige mais do que simplesmente aumentar gastos públicos.

A qualidade do investimento é fundamental.

Infraestrutura eficiente pode reduzir custos logísticos.

Educação e qualificação profissional podem elevar a produtividade dos trabalhadores.

Digitalização pode reduzir burocracia.

Mercados financeiros mais profundos podem direcionar capital para empresas mais produtivas.

Reformas que aumentem competição também podem incentivar inovação.

O desafio é combinar essas políticas sem deteriorar ainda mais as contas públicas.

A região precisa crescer sem depender apenas de commodities

Os preços elevados das matérias-primas ajudam exportadores no curto prazo.

Mas ciclos de commodities são voláteis.

Quando preços sobem, receitas fiscais e externas melhoram.

Quando caem, esse apoio desaparece.

A história econômica latino-americana possui vários exemplos desse padrão.

O FMI argumenta, em essência, que períodos favoráveis devem ser utilizados para construir uma economia mais resistente ao próximo ciclo negativo.

Isso significa reduzir vulnerabilidades fiscais e ampliar setores capazes de gerar produtividade independentemente das commodities.

México continua fortemente ligado à demanda dos EUA

O México possui uma dinâmica diferente de vários exportadores sul-americanos.

Sua economia é profundamente integrada aos Estados Unidos.

A demanda americana continua oferecendo suporte à atividade.

Remessas também representam uma fonte importante de renda para milhões de famílias.

Mas essa integração cria exposição às políticas comerciais americanas.

A incerteza sobre tarifas permanece um dos fatores capazes de reduzir parte dos benefícios do cenário externo favorável.

O FMI considera justamente que incertezas comerciais e geopolíticas compensam parte do impulso proporcionado pelas melhores condições financeiras.

Turismo e remessas sustentam Caribe e América Central

Para outras partes da região, os motores são diferentes.

Turismo continua importante para várias economias caribenhas.

Remessas enviadas por trabalhadores no exterior sustentam consumo em países da América Central e do Caribe.

Esses fluxos ajudam a estabilizar a atividade.

Mas também não substituem reformas estruturais.

Uma economia excessivamente dependente de turismo pode permanecer vulnerável a choques externos.

Da mesma forma, remessas elevadas aumentam a renda disponível, mas não necessariamente criam capacidade produtiva doméstica.

Argentina teve projeção de crescimento reduzida

A Argentina também aparece no novo diagnóstico do FMI.

O Fundo reduziu significativamente sua projeção de expansão após dados econômicos mais fracos do que esperava em 2026.

Chalk afirmou, porém, que espera uma recuperação do crescimento no próximo ano.

O caso argentino mostra como a região continua apresentando situações muito diferentes.

Não existe uma única história latino-americana.

Alguns países enfrentam inflação.

Outros precisam corrigir desequilíbrios fiscais.

Alguns se beneficiam fortemente de commodities.

Outros dependem de turismo, indústria ou comércio com os Estados Unidos.

O problema comum é o crescimento potencial relativamente baixo.

Juros globais continuam sendo uma variável decisiva

A recomendação do FMI de aproveitar as atuais condições financeiras possui uma razão adicional.

Países emergentes são particularmente sensíveis aos movimentos dos juros internacionais.

Quando os rendimentos de ativos considerados seguros aumentam, investidores exigem remuneração maior para assumir risco em mercados emergentes.

O custo de financiamento dos governos sobe.

Empresas também pagam mais para emitir dívida.

Moedas podem ficar sob pressão.

Uma deterioração simultânea das condições financeiras globais e dos preços das commodities seria especialmente difícil para países que não aproveitaram a fase favorável para reduzir vulnerabilidades.

Consolidação fiscal não significa necessariamente cortar investimento

Um dos maiores desafios políticos está justamente na composição do ajuste.

Reduzir dívida não significa simplesmente cortar todas as despesas.

Diminuir investimento público produtivo pode prejudicar o crescimento futuro e piorar a própria dinâmica da dívida.

O objetivo é melhorar a qualidade das contas públicas.

Isso pode envolver revisão de gastos pouco eficientes, melhor desenho de subsídios, ampliação da eficiência tributária e reformas capazes de limitar o crescimento automático de determinadas despesas.

A composição importa tanto quanto o tamanho do ajuste.

Crescimento maior também ajuda a estabilizar a dívida

A dívida pública costuma ser analisada em relação ao PIB.

Isso significa que o denominador também importa.

Se uma economia cresce de maneira sustentável, torna-se mais fácil estabilizar sua relação dívida/PIB.

É por isso que produtividade e fiscalidade estão conectadas.

Um ajuste baseado exclusivamente em aumento de impostos ou cortes que prejudiquem investimento pode reduzir o crescimento.

Nesse caso, parte do benefício fiscal desaparece.

Reformas produtivas podem fazer o contrário: aumentar a capacidade da economia de gerar renda e arrecadação ao longo do tempo.

América Latina precisa aproveitar a janela antes que ela feche

O alerta publicado pelo FMI em 16 de outubro não descreve uma crise regional iminente.

Esse é justamente o ponto.

As condições atuais ainda oferecem algum espaço para agir.

A demanda americana continua relativamente forte.

Commodities oferecem suporte.

Turismo e remessas permanecem robustos.

As condições financeiras ainda ajudam vários países.

Para Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, melhores termos de troca e condições de financiamento acrescentam cerca de 0,6 ponto percentual ao crescimento deste ano em relação a 2025.

Mas o FMI alerta que esses fatores não resolvem os dois problemas fundamentais: dívida elevada e produtividade fraca.

Crescimento de 2,3% não é suficiente para garantir convergência

A região deve crescer 2,3% em 2026 e 2,5% em 2027.

Essas taxas evitam um cenário recessivo generalizado, mas continuam abaixo dos 3,7% e 4,4% projetados para o conjunto das economias emergentes e em desenvolvimento.

Essa diferença acumulada importa.

Se outros mercados emergentes crescem continuamente mais rápido, atraem mais investimentos, ampliam seus mercados domésticos e elevam renda em ritmo superior.

A América Latina corre então o risco de perder participação relativa na economia mundial.

O problema não aparece necessariamente em uma única crise.

Ele surge lentamente, ao longo de vários anos.

Dívida, produtividade e inflação serão os três testes para 2027

A partir daqui, três indicadores serão particularmente importantes.

O primeiro é a trajetória da dívida pública.

Uma retomada da consolidação fiscal reduziria a vulnerabilidade caso as condições globais piorem.

O segundo é a produtividade.

Investimentos e reformas precisam começar a produzir crescimento potencial maior, e não apenas estímulo temporário.

O terceiro é a inflação.

O FMI espera que ela retorne às metas na maioria dos países até o fim de 2027, mas considera os riscos inclinados para cima.

Se energia e alimentos continuarem pressionados, bancos centrais poderão precisar manter juros elevados por mais tempo.

Isso tornaria simultaneamente mais caro financiar governos, empresas e famílias.

A América Latina entra, portanto, em uma fase aparentemente contraditória.

O ambiente externo ainda oferece suporte, mas o crescimento continua modesto.

Para o FMI, essa combinação deveria ser interpretada como oportunidade — não como motivo para adiar decisões.

Se os governos utilizarem a atual janela para reduzir dívida, melhorar a eficiência dos gastos e elevar produtividade, poderão enfrentar o próximo choque em posição mais forte.

Se as reformas continuarem sendo adiadas, o risco não será apenas uma desaceleração futura.

Será ver outras economias emergentes avançarem mais rapidamente enquanto a América Latina permanece presa a um crescimento próximo de 2%.

 

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