Voltar ao topo

 Dólar sobe com inflação forte nos EUA e incerteza sobre o Irã

Dólar sobe com inflação forte nos EUA e incerteza sobre o Irã

O dólar americano avançou na terça-feira pela segunda sessão consecutiva, apoiado por dados de inflação mais fortes que o esperado e pela incerteza em torno do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Em um mercado já sensível aos preços da energia, às decisões do Federal Reserve e às tensões geopolíticas, a divulgação do índice de preços ao consumidor reforçou a ideia de que o banco central americano pode manter uma política monetária restritiva por mais tempo do que se imaginava.

O índice do dólar, que mede a moeda americana frente a uma cesta de grandes divisas, subiu 0,4%, para 98,36, caminhando para sua maior alta diária desde 2 de abril. O euro recuou 0,42%, para US$ 1,1732, enquanto iene, libra esterlina e yuan offshore também se moveram em um ambiente de forte atenção aos riscos macroeconômicos e diplomáticos.

O movimento do dólar tem dois motores principais. O primeiro é a inflação americana, que continua acelerando sob o efeito dos preços da energia. O segundo é a nova incerteza em torno do Irã, depois que Donald Trump afirmou que o cessar-fogo estava “na UTI”. Para os mercados, essa combinação é clara: inflação mais alta, petróleo mais caro, menos chances de cortes de juros e maior demanda por ativos de refúgio.

Inflação americana supera expectativas

O Departamento do Trabalho informou que o índice de preços ao consumidor subiu 0,6% em abril, depois de avançar 0,9% em março. A alta mensal ficou em linha com as expectativas dos economistas consultados pela Reuters. Mas, em 12 meses, a inflação chegou a 3,8%, ligeiramente acima da previsão de 3,7%, após 3,3% em março.

Essa progressão anual marca a maior alta desde maio de 2023. Ela confirma que as pressões inflacionárias continuam presentes na economia americana, apesar dos esforços anteriores do Fed para trazer a inflação de volta à meta de 2%.

O principal problema vem da energia. A guerra entre Estados Unidos e Irã, as perturbações em torno do Estreito de Ormuz e a alta do petróleo pressionam os preços dos combustíveis, do transporte e de muitos custos indiretos. Quando a energia permanece cara, os efeitos podem se espalhar por toda a economia.

Adam Sarhan, diretor executivo da 50 Park Investments, resumiu a preocupação do mercado: enquanto os preços do petróleo não caírem, a inflação tende a continuar presente. Essa leitura é importante para investidores, porque reduz a esperança de um afrouxamento monetário rápido.

Mercados descartam cortes de juros do Fed

Após a divulgação, os mercados praticamente descartaram a possibilidade de um corte de juros pelo Federal Reserve neste ano. As expectativas até se moveram na direção oposta. Segundo a ferramenta FedWatch da CME, a probabilidade de uma alta de pelo menos 25 pontos-base na reunião de dezembro passou de 23,6% para 36% em uma sessão.

Essa mudança é importante. Ela mostra que investidores já não se perguntam apenas quando o Fed poderá cortar juros, mas se eventualmente precisará elevá-los novamente para conter a inflação.

Um ambiente de juros mais altos geralmente sustenta o dólar. Quando os rendimentos americanos se tornam mais atrativos, capitais internacionais podem se direcionar a ativos denominados em dólares. Isso fortalece a moeda americana frente a outras divisas.

A alta do dólar reflete, portanto, uma reavaliação do cenário monetário. Investidores passam a considerar um Fed mais cauteloso, menos disposto a cortar juros e potencialmente pronto para manter uma postura restritiva se a inflação energética se tornar persistente.

Kevin Warsh chega em contexto difícil

O mercado também acompanha a mudança na liderança do Fed. Kevin Warsh, escolhido por Donald Trump para ser o próximo presidente do Federal Reserve, foi confirmado pelo Senado americano para um mandato de 14 anos como governador do Fed. O Senado também aprovou o início de uma contagem regressiva de 30 horas que permite uma votação para aprová-lo como presidente do Fed já na quarta-feira.

Essa transição ocorre em um contexto monetário delicado. Warsh chega no momento em que a inflação volta a subir, os preços do petróleo estão sob pressão e os mercados começam a considerar não cortes de juros, mas uma possível nova alta.

A tarefa será difícil. De um lado, a administração Trump quer aliviar famílias e apoiar a economia antes das eleições de meio de mandato. De outro, o Fed precisa preservar sua credibilidade diante de uma inflação que continua bem acima da meta.

Se Warsh for confirmado como presidente, investidores analisarão imediatamente seu tom sobre inflação, energia e juros. Qualquer sinal acomodatício demais pode preocupar o mercado de títulos. Qualquer sinal rígido demais pode pesar sobre ações e fortalecer ainda mais o dólar.

Irã aumenta demanda pelo dólar como refúgio

O segundo motor do dólar é geopolítico. Depois de uma forte alta em março, no início da guerra entre Estados Unidos e Irã, o dólar havia recuado em abril, quando os mercados esperavam um acordo de paz. Mas essas esperanças enfraqueceram na terça-feira.

Donald Trump afirmou que o cessar-fogo com o Irã estava “na UTI” depois que Teerã rejeitou uma proposta americana para encerrar o conflito. O presidente americano também classificou as exigências iranianas como “lixo”, reforçando a ideia de que as negociações continuam travadas.

Nesse tipo de ambiente, o dólar pode se beneficiar de seu status de valor de refúgio. Quando tensões geopolíticas aumentam, investidores costumam procurar ativos líquidos, profundos e percebidos como mais seguros. A moeda americana continua sendo uma das principais beneficiadas por esse movimento.

A alta do dólar, portanto, reflete tanto uma prima de juros quanto uma prima de segurança.

Petróleo volta para acima de US$ 100

Os preços do petróleo subiram fortemente após os comentários de Trump. O petróleo americano avançou mais de 4%, para US$ 102,08 por barril, enquanto o Brent subiu 3,48%, para US$ 107,84 por barril. Essa alta mostra que traders temem nova deterioração dos fluxos de abastecimento.

O Estreito de Ormuz permanece no centro das preocupações. Essa rota marítima é um dos pontos de passagem mais importantes para o petróleo global. Qualquer restrição prolongada ou risco de escalada na região pode rapidamente sustentar os preços do crude.

Para o mercado de câmbio, o petróleo é crucial. Uma alta do crude pode alimentar a inflação, reduzir as perspectivas de cortes de juros e fortalecer a demanda por dólar. Também pode pressionar moedas de países importadores de energia, pois suas balanças comerciais e seus custos internos se deterioram.

Nesse contexto, o dólar recebe duplo apoio: a inflação americana reduz as expectativas de cortes de juros, e a incerteza geopolítica reforça seu papel defensivo.

Iene sob pressão apesar de sinais de intervenção

Frente ao iene, o dólar subiu 0,33%, para 157,66. A moeda japonesa havia saltado brevemente mais cedo, alimentando especulações sobre um “rate check”, procedimento muitas vezes visto como sinal antes de uma intervenção no mercado de câmbio.

O Japão já interveio para apoiar o iene duas semanas antes, segundo fontes citadas pela Reuters. A fraqueza do iene continua sendo um problema para Tóquio, porque aumenta o custo das importações, especialmente energéticas, e pode reforçar pressões inflacionárias domésticas.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que Estados Unidos e Japão consideram indesejável a volatilidade excessiva no mercado de câmbio. Esses comentários foram interpretados como apoio parcial aos esforços de Tóquio para estabilizar sua moeda.

Mesmo assim, o dólar continua forte contra o iene. Enquanto os juros americanos permanecerem altos e o Japão mantiver uma política monetária mais cautelosa, o diferencial de rendimento continuará pesando sobre a moeda japonesa.

Libra recua com incerteza política

A libra esterlina também recuou, perdendo 0,62%, para US$ 1,3523, depois de tocar US$ 1,3498, menor nível desde 30 de abril. A moeda britânica foi afetada pela incerteza política no Reino Unido, enquanto o primeiro-ministro Keir Starmer enfrenta pedidos crescentes de renúncia após resultados ruins nas eleições locais.

Starmer disse a seus ministros que continuará governando apesar de um período descrito como “desestabilizador”. Mas o mercado parece preocupado com a combinação entre pressão política, inflação persistente e crescimento fraco.

Kit Juckes, estrategista macro da Société Générale, avalia que boa parte das más notícias já está embutida no preço da libra, o que poderia eventualmente criar uma oportunidade de compra. Mas ele também destaca que a combinação britânica de inflação resistente e crescimento fraco continua sendo um fator de queda de longo prazo para a moeda.

A libra, portanto, está presa entre uma valuation já deprimida e fundamentos ainda frágeis.

Yuan fica no radar antes da reunião Trump-Xi

O dólar subiu levemente frente ao yuan offshore, para 6,793, antes das discussões previstas entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim nesta semana. Mais cedo, o yuan havia atingido 6,7885, seu nível mais forte desde fevereiro de 2023 frente ao dólar.

Os mercados acompanham atentamente essa reunião. As conversas devem envolver vários temas sensíveis, incluindo Irã, Taiwan, vendas de armas, o caso do magnata de mídia Jimmy Lai e o apoio americano à defesa de Taiwan.

O Barclays avalia que o yuan deve continuar girando em torno de 6,80 no curto prazo, com riscos de fortalecimento frente ao dólar. Uma moeda chinesa estável ou ligeiramente mais forte poderia facilitar o clima das discussões entre Washington e Pequim.

Para os mercados, a estabilidade do yuan é importante. Ela reduz o risco de novas tensões comerciais e pode ajudar a estabilizar fluxos financeiros asiáticos. Mas qualquer deterioração no diálogo entre Trump e Xi poderia mudar rapidamente essa leitura.

Por que o dólar segue favorecido

O dólar se beneficia atualmente de uma combinação favorável de fatores. A inflação americana continua elevada, o que reduz as chances de cortes de juros. As tensões com o Irã apoiam a demanda por ativos de refúgio. O petróleo elevado reforça preocupações inflacionárias. E incertezas políticas na Europa e no Reino Unido pesam sobre moedas concorrentes.

Isso não significa que o dólar subirá em linha reta. Se um acordo com o Irã avançar ou se os preços do petróleo recuarem fortemente, parte do suporte pode desaparecer. Da mesma forma, se os próximos dados econômicos dos EUA mostrarem desaceleração clara, as expectativas de juros podem voltar a mudar.

Mas, por enquanto, as condições permanecem favoráveis ao dólar. O mercado já não vê o Fed perto de um ciclo de cortes. Começa, em vez disso, a considerar um período prolongado de juros elevados, ou até uma nova alta se a inflação não desacelerar.

O que investidores devem acompanhar

Os próximos dias serão importantes para o mercado de câmbio. O primeiro elemento a observar será a evolução do petróleo. Se o crude continuar subindo, as pressões inflacionárias podem se intensificar e sustentar ainda mais o dólar.

O segundo elemento será a situação com o Irã. Qualquer avanço em direção a um cessar-fogo crível pode reduzir a demanda por refúgio. Qualquer nova escalada pode produzir o efeito oposto.

O terceiro elemento será a confirmação de Kevin Warsh na presidência do Fed e seus primeiros sinais de política monetária. Investidores vão querer saber se ele priorizará o combate à inflação ou um apoio mais forte à economia.

O quarto elemento será a reunião Trump-Xi. As discussões sobre Irã, Taiwan e relações comerciais podem influenciar yuan, dólar e sentimento global.

Por fim, os próximos dados econômicos americanos serão decisivos. Se a inflação continuar elevada, os mercados podem continuar revisando os juros para cima.

Conclusão

O dólar americano avançou na terça-feira após uma inflação dos EUA mais forte que o esperado e nova incerteza sobre o cessar-fogo com o Irã. O índice do dólar subiu 0,4%, para 98,36, enquanto euro, libra e iene recuaram frente à moeda americana.

O relatório de inflação mostrou alta anual de 3,8% em abril, o ritmo mais elevado desde maio de 2023. Esse dado levou os mercados a afastar ainda mais a ideia de cortes de juros do Fed neste ano e a elevar a probabilidade de uma alta em dezembro.

Ao mesmo tempo, os comentários de Donald Trump sobre o Irã reacenderam preocupações geopolíticas e sustentaram o petróleo acima de US$ 100. Essa combinação de inflação, petróleo caro e risco geopolítico cria um ambiente favorável ao dólar.

Por enquanto, a moeda americana segue apoiada pelos juros e por seu papel de refúgio. Mas o próximo movimento dependerá de três temas principais: a evolução do conflito com o Irã, a trajetória da inflação americana e o tom do Fed sob a provável nova liderança de Kevin Warsh.

Prev Post

Taxa da gasolina: Trump quer aliviar preços nas bombas, mas…

post-bars

Leave a Comment

Publicação relacionada