Sanções ao Irã podem redesenhar fluxos de petróleo, gás e comércio entre Ásia e Oriente Médio
A nova ofensiva econômica dos Estados Unidos contra o Irã pode produzir efeitos muito além da economia iraniana.
Ao ameaçar cortar do sistema do dólar empresas e instituições que continuem facilitando negócios com Teerã, Washington está colocando alguns dos principais parceiros comerciais do país diante de uma escolha difícil.
China, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Iraque e Índia mantêm relações com o Irã por razões muito diferentes. Alguns dependem de petróleo ou gás. Outros funcionam como centros de comércio e financiamento. Há ainda países que exportam alimentos, produtos industriais ou medicamentos para o mercado iraniano.
Isso significa que uma única política de sanções pode produzir consequências muito diferentes em cada economia.
China concentra o maior risco no petróleo
Nenhum país é tão importante para as receitas energéticas iranianas quanto a China.
Segundo o governo americano, aproximadamente 90% das exportações de petróleo do Irã têm a China como destino.
Esse volume transforma Pequim no principal sustentáculo externo da geração de divisas de Teerã.
Em 2025, o comércio bilateral oficialmente reportado chegou a US$ 9,96 bilhões.
Mas essa cifra não inclui cerca de US$ 31,2 bilhões em petróleo iraniano que teria entrado na China fora das estatísticas declaradas.
Refinarias independentes são o elo mais vulnerável
Grande parte desse petróleo é comprada por refinarias independentes chinesas.
Segundo a Kpler, cargas podem ser reclassificadas como petróleo da Malásia ou da Indonésia e liquidadas por intermediários que operam fora do sistema do dólar.
Washington já sancionou algumas dessas refinarias.
Até agora, porém, grandes bancos chineses foram poupados.
Essa escolha reduz o risco de confronto financeiro direto com Pequim.
Mas a nova ofensiva pode testar até onde os Estados Unidos estão dispostos a avançar.
A China pode resistir em público e cumprir em silêncio
Pequim já rejeitou politicamente as sanções americanas.
Em maio, autoridades chinesas orientaram empresas a ignorar restrições impostas a cinco refinarias ligadas ao comércio iraniano.
Ainda assim, existe diferença entre retórica diplomática e comportamento de grandes instituições.
Dan Wang, da Eurasia Group, acredita que bancos estatais e empresas petrolíferas podem aumentar discretamente o cumprimento das sanções para evitar problemas com os Estados Unidos.
O motivo é simples: acesso ao dólar e ao mercado americano continua extremamente valioso.
Emirados podem ser decisivos para fechar rotas financeiras
Os Emirados Árabes Unidos possuem uma relação econômica completamente diferente com o Irã.
O país funciona há décadas como um dos principais centros de importação, reexportação, financiamento e logística utilizados por empresas iranianas.
Em 2024, o comércio bilateral chegou a aproximadamente US$ 28 bilhões.
Os Emirados forneceram mais de 30% das importações iranianas e receberam cerca de 12% das exportações do país.
Isso fez deles uma peça fundamental para a integração indireta do Irã à economia mundial.
A suspensão do comércio muda radicalmente essa relação
Na semana passada, os Emirados suspenderam transações comerciais e financeiras com o Irã.
A decisão veio depois que dois mísseis balísticos foram disparados em direção ao território emirático, com um deles tendo como alvo tankers pertencentes aos Emirados.
Esse movimento pode facilitar a campanha americana.
Mas a dificuldade está na implementação.
Parte importante das estruturas iranianas de comércio indireto opera através de redes complexas de intermediários.
Dubaï é central para transbordo e shadow banking
O Washington Institute afirma que grande parte das atividades iranianas de transbordo, contrabando e shadow banking ocorre em Dubai.
Isso significa que bloquear oficialmente o comércio não encerra automaticamente todos os fluxos.
Autoridades terão de intensificar fiscalização sobre empresas de fachada, transferências financeiras e operações logísticas.
Matthew Levitt, ex-integrante do Tesouro americano, argumenta que Washington precisará apoiar Abu Dhabi na tentativa de obter maior cooperação de lideranças e empresas em Dubai.
Turquia enfrenta risco de abastecimento de gás
A Turquia possui uma exposição mais diretamente ligada à energia.
O comércio bilateral com o Irã chegou a US$ 5,7 bilhões em 2024.
Ankara exporta máquinas, componentes, produtos químicos e itens agrícolas e importa principalmente energia.
O gás natural iraniano continua tendo peso importante.
A participação do Irã nas importações turcas de gás teria subido para 18,6% neste ano.
Diversificação energética reduz, mas não elimina, a dependência
A Turquia vem tentando ampliar importações de outros fornecedores.
Azerbaijão e Rússia ganharam relevância nesse processo.
Mesmo assim, Ankara ainda não sinalizou intenção de cortar completamente o gás iraniano.
Se Washington aplicar sanções secundárias de forma agressiva, empresas turcas podem enfrentar dificuldades de pagamento ou de financiamento.
A questão deixa de ser apenas comercial e passa a envolver segurança energética.
Iraque enfrenta o cenário mais sensível
A dependência iraquiana é ainda mais profunda.
O país utiliza gás e eletricidade iranianos para sustentar parte relevante de seu sistema energético.
Em março de 2024, Irã e Iraque renovaram um acordo de cinco anos para o fornecimento de até quase 660 bilhões de pés cúbicos de gás natural por ano.
Em 2023, importações de eletricidade do Irã representavam mais de 30% da geração elétrica iraquiana.
Esses números mostram por que Bagdá não pode substituir rapidamente o fornecedor.
Sanções podem atingir diretamente pagamentos de energia
O Iraque paga aproximadamente US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões por ano pelo gás iraniano usado na geração de eletricidade.
Novas restrições financeiras podem bloquear ou atrasar esses pagamentos.
Isso cria um problema que vai além do setor bancário.
Se o Irã reduzir fornecimento porque não consegue receber, o Iraque pode enfrentar pressão sobre seu sistema elétrico.
O comércio bilateral, que superou US$ 10 bilhões em 2025, já caiu neste ano por causa da guerra e de interrupções em fronteiras.
Índia voltou recentemente ao petróleo iraniano
A exposição indiana diminuiu muito ao longo dos últimos anos.
O comércio bilateral caiu para aproximadamente US$ 1,6 bilhão no ano encerrado em março de 2026, ante US$ 2,3 bilhões três anos antes.
A Índia vende arroz, chá, açúcar e medicamentos ao Irã.
Também compra frutas frescas e secas.
Mas o maior risco aparece novamente no petróleo.
O retorno das importações agora pode ser interrompido
Em abril, refinarias indianas voltaram a comprar petróleo iraniano após sete anos.
A retomada aconteceu depois de um alívio temporário nas sanções americanas sobre as exportações de cru.
A nova estratégia de Washington ameaça justamente esse fluxo.
Se refinarias indianas forem incluídas no sistema de penalidades, empresas terão de decidir se a compra de petróleo iraniano compensa o risco de perder acesso a financiamento ou mercados ligados aos Estados Unidos.
O impacto depende de quem será realmente sancionado
A retórica da administração Trump é extremamente agressiva.
Mas mercados precisarão observar a lista concreta de entidades afetadas.
Se as medidas se concentrarem em empresas pequenas e já isoladas, o impacto econômico pode ser limitado.
Se grandes bancos, refinarias, tradings e operadores logísticos forem incluídos, a capacidade iraniana de manter comércio internacional pode cair de forma muito mais rápida.
A diferença entre esses dois cenários é enorme.
O dólar é a principal arma da estratégia americana
O poder das sanções americanas não vem apenas do tamanho da economia dos Estados Unidos.
Ele vem também da importância do dólar no financiamento global.
Mesmo empresas que fazem pouco negócio diretamente com os EUA podem precisar de bancos correspondentes, crédito em dólar ou acesso a mercados financeiros americanos.
Perder essas conexões pode custar muito mais do que abandonar contratos com o Irã.
É essa assimetria que Washington pretende explorar.
A moeda iraniana já mostra sinais de estresse
A pressão chega em um momento delicado para o câmbio.
No mercado livre de Teerã, o dólar chegou a 200 mil tomans em 24 de agosto, um recorde.
Uma redução adicional das receitas com petróleo ou das entradas de divisas poderia ampliar essa tensão.
Menos dólares disponíveis significam maior dificuldade para pagar importações e estabilizar a moeda local.
Isso faz das exportações energéticas um ponto central da resistência econômica iraniana.
O petróleo continua sendo o maior canal de receita
Embora o Irã mantenha comércio de alimentos, produtos industriais e outros bens, o petróleo continua sendo o fluxo mais importante do ponto de vista financeiro.
Por isso, a China ocupa posição central.
Se refinarias chinesas continuarem comprando, parte relevante da receita externa de Teerã pode sobreviver.
Se bancos, transportadoras e compradores começarem a se retirar para proteger acesso ao dólar, a pressão aumenta rapidamente.
Emirados podem ser igualmente importantes pelo lado financeiro
O caso dos Emirados mostra que não basta reduzir exportações de petróleo.
O Irã também precisa de mecanismos para importar bens, movimentar recursos e acessar sistemas de pagamento.
Dubai historicamente ajudou a preencher essa função.
Uma repressão efetiva a shadow banking e transbordo pode, portanto, ser tão importante quanto sanções sobre compradores de cru.
Esse é um dos motivos pelos quais Washington deverá observar de perto a implementação da suspensão emirática.
Cada parceiro enfrenta um dilema diferente
A China precisa equilibrar sua relação estratégica com o Irã e seu acesso ao sistema financeiro ocidental.
Os Emirados precisam transformar uma decisão política de suspensão em fiscalização real.
A Turquia precisa administrar segurança energética.
O Iraque precisa evitar problemas em seu sistema elétrico.
A Índia precisa decidir se vale a pena retomar compras de petróleo sob risco de sanções secundárias.
Essa diversidade torna a estratégia americana difícil de executar de forma uniforme.
Conclusão
A nova campanha dos Estados Unidos contra o Irã pode modificar rotas de petróleo, gás, comércio e financiamento em vários países ao mesmo tempo.
China é o maior alvo econômico indireto porque compra a maior parte do petróleo iraniano. Emirados Árabes Unidos têm importância logística e financeira. Turquia e Iraque dependem de energia iraniana, enquanto a Índia voltou recentemente a importar cru.
O sucesso da pressão americana dependerá menos da ameaça inicial e mais da capacidade de aplicar sanções a parceiros relevantes sem provocar custos diplomáticos excessivos.
Ponto-chave final
A verdadeira batalha econômica não está apenas entre Estados Unidos e Irã. Ela acontece nas decisões de bancos, refinarias, tradings e governos de terceiros países. Se esses atores concluírem que preservar acesso ao dólar vale mais do que manter negócios com Teerã, a economia iraniana pode perder parte importante de suas linhas de receita e financiamento. Se encontrarem formas de contornar as restrições, a ofensiva terá efeito muito mais limitado.