Tesla inicia entregas do Semi elétrico após quase uma década de atrasos
A Tesla começou a entregar as primeiras unidades de seu caminhão totalmente elétrico Semi a clientes, quase uma década depois de apresentar o veículo, em 2017. O lançamento comercial encerra uma longa fase marcada por atrasos, refinamentos de engenharia e testes com clientes-piloto. Executivos da companhia apresentaram os detalhes mais recentes do caminhão durante um evento realizado na quinta-feira, em Reno, Nevada. Elon Musk não participou presencialmente porque estava no jantar de Estado do presidente Donald Trump com o premiê chinês Xi Jinping.
Segundo uma pessoa familiarizada com o assunto ouvida pela TechCrunch, os clientes poderão receber os caminhões quando estiverem prontos, embora a infraestrutura de recarga represente um obstáculo. A Tesla não revelou o preço final de venda durante o evento. Seus executivos, porém, afirmaram que o Semi poderá ajudar operadores de frotas a reduzir o custo total de propriedade, diminuir emissões e obter maior confiabilidade.
Nova fábrica poderá produzir até 50 mil caminhões por ano
O evento ocorreu em uma nova fábrica dedicada ao Semi, instalada ao lado da primeira Gigafactory da Tesla em Reno. A empresa pretende construir até 50 mil caminhões por ano nessa unidade, ritmo equivalente a mil veículos por semana. O projeto também deverá criar 3 mil empregos para a economia local.
A versão mais capaz do Semi deverá percorrer 500 milhas ou mais com uma única carga, dependendo do tamanho da carga transportada. Seu preço deverá ficar pouco abaixo de US$ 300 mil antes de incentivos. A Tesla também planeja oferecer versões com autonomia menor.
A chegada do caminhão ocorre durante uma mudança no posicionamento da empresa. Musk passou a apresentar a Tesla como uma companhia de robótica e inteligência artificial, apesar de quase toda sua receita vir das vendas de veículos. Ele também alterou a missão corporativa para “construir um mundo de abundância incrível”. Quando apresentou o Semi em 2017, a missão declarada era “acelerar a transição mundial para a energia sustentável”.
Apesar dessa mudança de posicionamento e das aparentes alterações nas prioridades da Tesla, a redução das emissões do transporte rodoviário continuou sendo um tema importante no evento. Dan Priestley, responsável pelo programa Semi, afirmou que caminhões pesados respondem por 16% das emissões, embora representem apenas 1% dos veículos nas estradas.
Priestley disse que a Tesla está animada para colocar os caminhões em suas próprias operações porque isso atende à missão que originalmente orientou a empresa.
Semi acumulou anos de atrasos antes das primeiras entregas
Originalmente, o Semi deveria entrar em produção em 2019. O cronograma foi adiado por vários motivos. A pandemia, a escassez global de peças e semicondutores e modificações realizadas a partir do retorno de clientes-piloto contribuíram para prolongar a espera.
Durante o evento de 30 minutos, Priestley e Lars Moravy, responsável por grande parte dos esforços de engenharia da Tesla, detalharam várias mudanças feitas no caminhão. A duração da apresentação também serviu para demonstrar a velocidade de carregamento: um Semi começou com 3% de bateria e chegou a 60% enquanto permanecia conectado a uma das estações de carregamento de megawatt da Tesla.
A companhia também está construindo uma rede completa desses carregadores, segundo Priestley. A infraestrutura é relevante porque a disponibilidade de recarga permanece um dos obstáculos para clientes interessados em receber seus veículos.
Algumas alterações realizadas desde o projeto original são substanciais. A Tesla conseguiu retirar mil libras do peso do veículo em comparação com a versão inicial. Outras mudanças são mais específicas e envolvem componentes internos desenvolvidos durante o processo de refinamento.
Tesla simplificou componentes do eixo de tração
Uma dessas modificações ocorreu no eixo de tração. O projeto anterior utilizava três óleos diferentes, enquanto a versão atual precisa de apenas um. Moravy afirmou que o desenho anterior sempre o havia frustrado e reconheceu que a Tesla tende a priorizar soluções muito específicas e personalizadas.
Priestley explicou que alterações no projeto do motor, combinadas ao trabalho da equipe de lubrificantes da empresa, permitiram eliminar os outros dois óleos. Ao comentar o processo, ele reconheceu que ocasionalmente a Tesla vai longe demais na busca por soluções próprias.
Essa revisão ilustra como o longo período entre a apresentação original e as primeiras entregas não foi marcado apenas por atrasos externos. A empresa também utilizou o retorno recebido durante os testes para revisar escolhas feitas anteriormente e adaptar o caminhão às necessidades práticas de seus usuários.
Janelas convencionais substituem uma escolha original criticada
A Tesla também precisou mudar o desenho das janelas laterais. O projeto inicial usava janelas basculantes que não abriam. Durante anos, caminhoneiros e jornalistas especializados em automóveis apontaram essa característica como um problema evidente para o uso cotidiano.
No evento, Priestley reconheceu o erro. Ele classificou a solução original como insuficiente e revelou que o novo Semi possui agora janelas convencionais que descem.
Segundo ele, diversos elementos da infraestrutura utilizada por caminhoneiros ficam na altura das janelas. Leitores de crachá, cabines de pedágio e caixas de comunicação são alguns exemplos. Durante os testes, tornou-se evidente que uma janela que pudesse baixar seria necessária para facilitar a interação dos motoristas com essa infraestrutura.
Priestley afirmou que a empresa reconhecia ter errado nas janelas. Moravy respondeu que não havia problema em admitir o erro. A troca mostra uma das adaptações resultantes da experiência acumulada antes do lançamento comercial.
Meta de 500 milhas permanece no centro do projeto
Se algumas decisões originais precisaram ser abandonadas, a Tesla manteve sua ambição de criar um caminhão capaz de percorrer 500 milhas com uma única carga mesmo totalmente carregado. Musk havia apresentado essa meta durante a estreia do Semi em 2017, e a promessa enfrentou ceticismo durante anos.
Bill Gates foi um dos críticos mais conhecidos. Em uma publicação de 2020, ele afirmou que grandes caminhões elétricos provavelmente nunca seriam uma solução prática porque baterias são grandes e pesadas.
Moravy e Priestley fizeram referências indiretas a esses críticos durante o evento sem citar Gates pelo nome. Priestley explicou que a equipe procura economizar cada watt-hora possível porque ganhos de eficiência produzem um efeito acumulativo.
Segundo ele, tornar o veículo mais eficiente significa precisar de menos bateria para realizar a mesma quantidade de trabalho. Uma bateria menor, por sua vez, reduz custos e massa, criando benefícios para o projeto.
Moravy comentou que a Tesla teve críticos, enquanto Priestley observou que alguns nomes eram bastante reconhecidos. Moravy acrescentou que a empresa gosta quando dizem que alguma coisa é impossível e que a equipe aceitou esse desafio.
Carregamento foi demonstrado durante a apresentação
A demonstração realizada em Reno procurou conectar os avanços de eficiência à infraestrutura necessária para operar o caminhão. Durante os cerca de 30 minutos do evento, a bateria do Semi conectado a uma estação de megawatt passou de 3% para 60%.
Priestley também falou sobre a rede de carregadores que a Tesla está construindo. Ainda assim, a fonte ouvida pela TechCrunch afirmou que a infraestrutura de recarga continua sendo um obstáculo para a entrega aos clientes.
Isso significa que o início das entregas não elimina automaticamente os desafios de implantação. Os clientes podem receber seus veículos quando estiverem preparados, mas a disponibilidade da infraestrutura necessária para carregá-los continua sendo uma consideração prática no processo.
Musk promete recursos de automação no futuro próximo
Embora Musk não estivesse presente no evento, ele gravou um segmento exibido antes do início da apresentação. No vídeo, afirmou que o Semi será o caminhão mais divertido de dirigir.
Musk também prometeu que os recursos de automação parcial da Tesla serão adicionados ao veículo em um “futuro próximo”. Essas funcionalidades não estão presentes no Semi, apesar dos vários anos transcorridos desde a apresentação original.
Além disso, Musk defendeu a lógica econômica do caminhão. Segundo ele, o Semi faz muito sentido financeiramente porque o custo da eletricidade por milha é muito inferior ao custo do diesel, especialmente no ambiente atual.
O texto fornecido observa que os preços do diesel aumentaram em meio à guerra que afetou os mercados de energia. A apresentação, entretanto, concentrou-se na proposta da Tesla de reduzir custos operacionais por meio da eletrificação, sem divulgar o preço final do veículo.
Primeiras entregas encerram uma longa etapa de desenvolvimento
A entrega das primeiras unidades representa uma mudança concreta para um projeto anunciado em 2017 e originalmente previsto para produção em 2019. Durante esse intervalo, a Tesla enfrentou fatores externos, como pandemia e escassez de componentes, ao mesmo tempo que modificou elementos do próprio caminhão com base em testes e feedback.
O Semi que chega aos clientes está mais leve que a versão inicial, utiliza um sistema simplificado de lubrificação no eixo de tração e abandonou as janelas laterais originais em favor de uma solução convencional. A Tesla mantém, ao mesmo tempo, a meta de autonomia de 500 milhas ou mais para sua versão mais capaz.
A nova fábrica em Reno deverá sustentar uma capacidade de até 50 mil unidades anuais e criar 3 mil empregos. A empresa também desenvolve uma rede de carregadores de megawatt para apoiar a operação desses caminhões.
Ainda permanecem elementos sem definição pública. A Tesla não revelou o preço final durante o evento, embora a versão de maior autonomia deva custar pouco menos de US$ 300 mil antes dos incentivos. Os recursos de automação parcial prometidos por Musk também deverão chegar posteriormente.
Depois de quase uma década de desenvolvimento, portanto, o Semi deixa a fase de refinamentos e começa a chegar em escala comercial agora aos clientes. A próxima etapa será colocar os caminhões em operação enquanto a Tesla amplia produção, infraestrutura de recarga e as funcionalidades que pretende adicionar ao veículo.