Bitcoin fecha seu pior primeiro trimestre desde 2018 e reacende grandes dúvidas sobre o que vem pela frente
O bitcoin acaba de atravessar um primeiro trimestre de 2026 particularmente difícil, com queda de cerca de 22% no período, o que representa seu pior começo de ano desde 2018. A criptomoeda terminou o trimestre perto de 68.200 dólares, segundo várias leituras de mercado, depois de apagar boa parte do impulso positivo observado logo no início do ano.
Essa queda chama ainda mais atenção porque ocorre depois de vários trimestres bastante fortes. O bitcoin havia se recuperado de forma expressiva em 2023 e 2024, depois já mostrou sinais de cansaço em 2025, e agora começa 2026 de forma ainda mais fraca. O primeiro trimestre deste ano reforça, portanto, a ideia de que o mercado não está em uma trajetória linear e continua altamente sensível a choques macroeconômicos, geopolíticos e de liquidez.
O mais importante não é apenas a queda final. É a forma como ela aconteceu. O trimestre começou em tom muito mais favorável, com o bitcoin acima de 87.000 dólares e uma arrancada inicial que o levou para perto de 95.000 dólares. Esse início sustentou a narrativa de que uma nova fase de alta ainda poderia ganhar força. Mas esse movimento virou rapidamente, e o mercado passou então a alternar quedas, repiques técnicos e novas perdas, sem jamais recuperar estabilidade de verdade.
Essa sequência recolocou uma pergunta que muitos investidores esperavam já ter deixado para trás: o bitcoin está vivendo apenas uma correção dentro de um ciclo maior de alta ou está entrando em um período mais longo de digestão, desgaste e enfraquecimento estrutural do momentum?
Um trimestre que começou forte e virou de forma brusca
O começo do ano não sugeria um trimestre tão fraco. O bitcoin estava um pouco acima de 87.000 dólares e mostrou força suficiente para subir até a região de 95.000 dólares. Naquele momento, o mercado ainda podia acreditar em uma continuação do impulso positivo observado em períodos anteriores.
Mas essa arrancada não durou. O preço depois despencou para perto de 60.000 dólares em 6 de fevereiro, marcando uma mudança de humor muito rápida. Essa passagem de uma dinâmica de entusiasmo para uma dinâmica defensiva em poucas semanas alterou profundamente a psicologia do mercado. Os compradores que esperavam uma ruptura em direção a novas máximas se viram presos em um ambiente muito mais nervoso, dominado por redução de risco e desconfiança.
Depois dessa queda forte, o bitcoin ainda tentou um repique em direção a 70.000 dólares mais tarde em fevereiro. Mas, novamente, o movimento não se transformou em recuperação sustentável. Em vez disso, o mercado ficou preso em uma sequência de altas frágeis e novas ondas de venda. Isso consolidou gradualmente a impressão de que, a cada repique, parte dos participantes estava mais interessada em reduzir exposição do que em reconstruir posições com convicção.
Esse tipo de comportamento costuma ser característico de um mercado que perdeu seu motor narrativo de curto prazo. Ele não necessariamente carece de participantes, mas carece de compradores dispostos a defender níveis mais altos com agressividade.
Por que esse primeiro trimestre é tão importante na história do bitcoin
Os dados compilados por diversas fontes mostram o quanto esse trimestre contrasta com alguns anos recentes. O primeiro trimestre de 2018 havia registrado uma queda próxima de 50%, em um contexto de forte purga pós-bolha. Depois disso, os desempenhos foram mais mistos: alta em 2019, queda em 2020, forte disparada em 2021, recuo leve em 2022, forte recuperação em 2023 e 2024. Em 2025, o mercado já tinha quebrado parte desse padrão ao registrar um trimestre inicial negativo, e 2026 aprofunda ainda mais essa deterioração.
Isso importa porque os investidores costumam ler o primeiro trimestre como um sinal psicológico importante. Um começo de ano ruim não determina automaticamente o restante do ano, mas enfraquece muito o sentimento. Ele transmite ao mercado a sensação de que não existe uma base natural de alta e de que o ativo continua dependente de um catalisador externo para retomar tração.
E, em 2026, esse catalisador não apareceu. Em vez disso, o mercado teve de lidar com mais incerteza, mais tensão geopolítica e mais nervosismo nos ativos de risco em geral.
O fator geopolítico pesou mais do que o esperado
Uma das principais explicações para o trimestre está no agravamento das tensões no Oriente Médio. Fontes de mercado relacionam explicitamente a fraqueza do bitcoin à deterioração do ambiente geopolítico, que pressionou os ativos de risco ao longo de março e no início de abril.
O problema para o bitcoin, nesse contexto, é que ele não se impôs de forma clara como ativo de proteção. O mercado o tratou mais como um ativo sensível ao risco, capaz até de reagir positivamente em alguns momentos de tensão, mas também propenso a cair quando o ambiente global se torna instável demais. Essa ambivalência é importante. Ela mostra que a narrativa de “refúgio digital” ainda existe, mas não é constante nem dominante diante de qualquer choque.
No começo do segundo trimestre, essa fragilidade ficou ainda mais evidente após novas declarações de Donald Trump sobre o Irã. Depois de sinalizar uma postura mais dura e falar em novas ações militares nas semanas seguintes, o bitcoin caiu cerca de 3% em 24 horas para a faixa de 66.700 dólares. Outras grandes criptomoedas acompanharam o movimento.
Isso sugere que o mercado cripto continua profundamente conectado ao pano de fundo macroeconômico global. Os investidores já não tratam mais o bitcoin como uma bolha isolada do resto. Eles o leem pelos mesmos filtros aplicados a outros ativos de risco: liquidez, petróleo, guerra, inflação, bancos centrais e apetite por risco.
Um mercado mais volátil, mais nervoso e mais instável
O trimestre não foi ruim apenas em desempenho. Ele também foi ruim em estrutura. O bitcoin passou por oscilações rápidas, repiques frustrados, quebras de nível sem continuidade clara e uma ação de preços difícil de interpretar. Isso é típico de um mercado em que a convicção é fraca e qualquer choque externo pode rapidamente alterar o sentimento.
Para traders, esse tipo de ambiente é muito diferente de um mercado claramente de baixa ou claramente de alta. Em um mercado de alta, as correções costumam servir para recompor posição. Em um mercado de baixa mais “limpo”, os repiques tendem a ser limitados e a direção permanece legível. Aqui, o mercado ofereceu algo mais desconfortável: uma sequência de falsos começos, recuperações temporárias e novas quedas rápidas.
Esse tipo de ambiente consome capital, mas também consome paciência. Ele leva parte dos investidores a encurtar o horizonte, ficar mais tática ou simplesmente sair de cena até que apareça um sinal mais claro.
Abril oferece um padrão sazonal historicamente melhor
Apesar do fim de trimestre fraco, algumas leituras lembram que abril historicamente foi um mês mais favorável para o bitcoin. Dados citados no relatório apontam para um ganho médio de cerca de 11,9% nesse mês, com retorno mediano em torno de 5%.
Esse ponto não deve ser ignorado, mas também não deve ser romantizado. Estatística sazonal não protege o mercado contra um ambiente macroeconômico deteriorado. Ela apenas mostra que, historicamente, abril costumou tratar o bitcoin melhor do que outros meses. Em um mercado normal, isso pode ser suficiente para reativar algum otimismo. Em um mercado carregado por guerra, petróleo e medo nos ativos de risco, essa vantagem estatística pode ser muito menos poderosa.
Em outras palavras, abril oferece uma razão histórica para procurar um repique, mas não uma garantia. O mercado ainda vai precisar de uma mudança de tom mais concreta, seja ela vinda da macro, da política monetária, dos fluxos institucionais ou de uma melhora geopolítica.
O debate real: correção temporária ou sinal de desgaste mais profundo?
A queda do primeiro trimestre abre, na prática, duas leituras concorrentes.
A primeira é relativamente construtiva. Ela diz que o bitcoin atravessou apenas uma correção severa, mas ainda relativamente clássica para um ativo historicamente volátil, agravada por choques geopolíticos. Nessa leitura, o trimestre ruim não destruiria o potencial de longo prazo, sobretudo se o ambiente macro melhorar nos próximos meses.
A segunda leitura é mais cautelosa. Ela sugere que a fraqueza deste trimestre revela algo mais profundo: esgotamento do motor de alta, fadiga do mercado depois de vários ciclos de recuperação e sensibilidade persistente a choques externos. Nesse cenário, o bitcoin não estaria sofrendo apenas por causa da guerra ou do petróleo. Estaria mostrando também que perdeu parte da capacidade que tinha de absorver notícias ruins sem romper sua estrutura.
Por enquanto, as duas leituras permanecem abertas. O que está claro é que o primeiro trimestre de 2026 não autoriza uma visão serena ou linear do mercado.
Conclusão
O bitcoin terminou o primeiro trimestre de 2026 em queda de cerca de 22%, perto de 68.200 dólares, registrando seu pior início de ano desde 2018. Depois de um começo forte que o levou para perto de 95.000 dólares, o ativo perdeu rapidamente o impulso, caiu para a região de 60.000 dólares e terminou o trimestre em um mercado cada vez mais instável.
A escalada das tensões no Oriente Médio pesou claramente sobre o sentimento, e as novas declarações de Donald Trump no começo do segundo trimestre lembraram o mercado de que o bitcoin continua muito sensível ao ambiente global de risco. Ao mesmo tempo, o histórico sazonal de abril ainda deixa aberta a possibilidade de um repique.
O ponto central, portanto, não é apenas reconhecer que o trimestre foi ruim — ele foi. O ponto central é entender o que isso anuncia para o restante do ano. Ou essa queda ficará registrada como uma correção severa, mas temporária, em um ativo ainda capaz de retomar força. Ou ela marcará a entrada em uma fase mais longa de dúvida, digestão e fragilidade. Por enquanto, uma coisa é certa: o bitcoin reabriu as grandes perguntas — e ainda não deu as respostas.