Ocupação russa intensifica militarização, tomada de imóveis e controle social na Ucrânia
A Rússia continua aprofundando seu sistema de controle nos territórios ucranianos ocupados, segundo a atualização de 9 de julho de 2026 do Institute for the Study of War. O relatório descreve uma estratégia em múltiplas camadas: militarização de jovens ucranianos, transferências temporárias de adolescentes para a Rússia, recrutamento em universidades ocupadas, confisco de moradias, redistribuição de imóveis a categorias favorecidas de cidadãos russos, repressão religiosa e construção de um ecossistema midiático pró-Rússia.
Essas práticas mostram que a ocupação não se limita à presença militar. Ela também busca remodelar sociedade, educação, economia local, propriedade privada, informação e identidade das populações que vivem sob controle russo. A Rússia tenta normalizar a integração forçada desses territórios ao seu próprio espaço político, administrativo e cultural.
O relatório também destaca uma crise humanitária extrema em Oleshky, no oblast de Kherson ocupado, onde forças russas impõem, na prática, um bloqueio que limita movimentos, impede acesso à ajuda alimentar e médica e deixa milhares de civis em situação desesperadora.
Deportação temporária e militarização de adolescentes
Um dos elementos mais graves do relatório envolve a transferência temporária de adolescentes do oblast de Luhansk ocupado para a região russa de Volgogrado para participar de um programa de treinamento em aviação militar.
A administração do oblast de Volgogrado informou que o acampamento esportivo de defesa Avangard e o centro de treinamento de aviação Kacha lançaram um programa complementar destinado a cadetes do programa militar-patriótico Voin, incluindo jovens vindos de Luhansk ocupado.
O programa mira jovens de 16 e 17 anos. Ele ensina a história da aviação militar russa, coloca os participantes em contato com pilotos em serviço ativo e permite que explorem desafios ligados à pilotagem militar real. Os participantes também devem realizar um voo de treinamento.
A iniciativa se insere em um quadro mais amplo de militarização de crianças ucranianas. Segundo o ISW, o programa Avangard-Kacha contribui para os objetivos do programa federal russo “Juventude e Crianças”, lançado por Vladimir Putin no início de 2025. Esse programa está ligado à militarização, transferência forçada e deportação de crianças ucranianas.
Avangard, centro de militarização da juventude ucraniana
O acampamento Avangard no oblast de Volgogrado tornou-se um dos centros importantes da militarização de adolescentes ucranianos transferidos para a Rússia. Desde pelo menos 2023, recebe vários programas de treinamento cujo objetivo explícito é preparar jovens ucranianos para futuro serviço nas forças armadas russas.
Essa estratégia é especialmente preocupante porque mira menores vivendo sob ocupação. A Rússia não apenas os expõe a uma educação militarizada. Ela tenta integrá-los a um imaginário nacional russo, familiarizá-los com instituições militares e transformar seu futuro cívico em uma possível trajetória militar.
A militarização da juventude é uma ferramenta de controle de longo prazo. Ela não produz apenas futuras recrutas. Também muda normas sociais, percepção da guerra e identidade política das novas gerações.
Nos territórios ocupados, essa política faz parte de uma tentativa de arrancar a identidade ucraniana e substituí-la por lealdade institucional à Rússia.
Recrutamento e treinamento de drones em Luhansk
O relatório também descreve uma sessão de recrutamento e treinamento de drones organizada pelas forças russas de sistemas não tripulados para estudantes da Universidade Estatal Vladimir Dahl, em Luhansk ocupado.
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que militares do 3º Exército de Armas Combinadas, ligado ao agrupamento sul das forças russas, encontraram estudantes nessa universidade. Alguns estudantes que já haviam assinado contratos com as forças russas de drones participaram como representantes ativos dessas forças.
Os militares russos apresentaram informações sobre treinamento, benefícios militares, incentivos financeiros e recompensas por destruição de alvos. Os estudantes observaram modelos de drones usados em operações de combate, analisaram imagens de operações de drones e praticaram pilotagem em simuladores de voo.
Essa atividade mostra que universidades em território ocupado estão sendo usadas como ferramentas de recrutamento militar. Elas já não funcionam apenas como instituições de ensino, mas como plataformas de integração de jovens às estruturas militares russas.
Drones no centro da militarização institucional
Os drones ocupam papel central na guerra atual, e a Rússia tenta institucionalizar seu aprendizado nos territórios ocupados. Competições de drones, sessões de recrutamento e treinamentos técnicos servem para preparar estudantes a ingressar nas forças armadas russas, especialmente nas unidades de sistemas não tripulados.
A Universidade Estatal Vladimir Dahl já esteve envolvida em esforços para atrair e treinar jovens do oblast de Luhansk ocupado para o serviço militar, inclusive por meio de competições de drones.
Essa abordagem permite que a Rússia combine educação técnica, propaganda militar e recrutamento. Transforma uma competência tecnológica em via de integração militar.
Para as autoridades de ocupação, o drone é uma ferramenta ideal de mobilização da juventude. Parece moderno, técnico e atraente, ao mesmo tempo em que está diretamente ligado às necessidades operacionais do exército russo.
Treinamento militar de crianças em Sebastopol
Na Crimeia ocupada, veteranos russos da guerra na Ucrânia lançaram um curso tático militar destinado a crianças e adolescentes. O chefe da ocupação de Sebastopol, Mikhail Razvozhaev, informou que a associação regional de veteranos da guerra na Ucrânia está implementando o programa militar-esportivo “Rubezh. O caminho do guerreiro” no centro esportivo Spartak.
O programa deve formar 80 crianças e adolescentes de 12 a 18 anos. Eles aprenderão fundamentos de treinamento militar e tático, incluindo medicina tática, defesa radiológica, química e biológica, armas de fogo e operação de drones.
Essa iniciativa confirma que a militarização não atinge apenas adolescentes próximos da idade adulta. Também mira crianças muito mais jovens.
O envolvimento de veteranos russos reforça a dimensão ideológica do programa. Os jovens não são expostos apenas a técnicas militares, mas também a uma narrativa da guerra construída por aqueles que participaram dela do lado russo.
Tomada de imóveis sob pretexto de bens “sem dono”
A ocupação russa também intensifica seus esforços de controle administrativo e econômico por meio do confisco de imóveis. A administração de ocupação do oblast de Luhansk publicou um decreto simplificando o procedimento de confisco de propriedades declaradas “sem dono”.
O decreto estabelece um procedimento de registro para moradias com sinais de “ausência de proprietário” e permite que moradores, organizações, responsáveis de ocupação e inspeções governamentais proponham apartamentos e casas para inclusão nesse cadastro.
Essa simplificação é muito importante. Dá às autoridades de ocupação um mecanismo administrativo para aumentar artificialmente o número de imóveis considerados abandonados, inutilizados ou sem proprietário identificável.
Em um território marcado por guerra, deslocamentos forçados e exílio, muitos proprietários ucranianos não conseguem acessar suas moradias. A Rússia pode então usar sua ausência como pretexto para tomar os bens.
Inventário massivo de imóveis ocupados
O serviço russo Rosreestr afirmou ter identificado 1,9 milhão de imóveis ausentes do registro estatal unificado e 63.000 parcelas de terra “não utilizadas” cobrindo 916,4 hectares nos territórios ucranianos ocupados.
Desde setembro de 2024, as autoridades russas conduzem um amplo projeto de inventário nos oblasts ocupados de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson. Esse projeto consiste em identificar propriedades, esclarecer seus limites e características, localizar bens “sem dono” e terrenos “não utilizados”.
Na aparência, trata-se de processo burocrático. Na prática, pode servir para legalizar expropriação e reconstruir o mercado imobiliário sob controle russo.
A propriedade privada torna-se, assim, instrumento de transformação demográfica. Os bens tomados podem ser redistribuídos a funcionários, policiais, trabalhadores médicos, professores ou novos moradores favoráveis ao sistema de ocupação.
Redistribuição de moradias tomadas
O relatório indica que responsáveis de ocupação identificam, reformam e redistribuem propriedades declaradas “sem dono” a categorias preferenciais de cidadãos russos e de pessoal útil à ocupação.
No oblast de Zaporizhzhia ocupado, o ministério de ocupação encarregado de propriedade e relações fundiárias afirmou ter transferido 618 imóveis residenciais com sinais de “ausência de proprietário” para pessoal público para fins de preservação.
Desses imóveis, 454 teriam sido entregues a membros das forças de segurança, 40 a trabalhadores da saúde, 12 a trabalhadores da educação e 112 a outras categorias de moradores.
Em Mariupol, as autoridades de ocupação também transferiram um primeiro apartamento reformado no âmbito de um programa municipal de cofinanciamento a um novo proprietário. Segundo fontes ucranianas, esse apartamento havia sido previamente tomado após ser designado como “sem dono”.
Essa política serve ao mesmo tempo para reduzir escassez de pessoal em setores críticos e repovoar territórios ocupados com pessoas ligadas ao sistema russo.
Estratégia de transformação demográfica
A tomada e redistribuição de moradias não são apenas econômicas. Elas têm objetivo demográfico e político.
Ao confiscar bens de ucranianos deslocados ou ausentes e depois atribuí-los a policiais, funcionários, trabalhadores públicos ou cidadãos russos, a ocupação altera a composição social de cidades e vilarejos.
Esse processo pode reduzir a possibilidade de retorno dos habitantes ucranianos originais. Também consolida a presença de pessoas dependentes da administração de ocupação e, portanto, mais propensas a apoiar o controle russo.
Nesse contexto, a moradia vira ferramenta de colonização administrativa. Serve para enraizar duravelmente a ocupação no tecido local.
Essa estratégia lembra que a ocupação não se decide apenas na linha de frente. Ela também se decide em registros fundiários, apartamentos, escolas e administrações locais.
Oleshky sob bloqueio de fato
A situação mais grave em termos humanitários envolve Oleshky, no oblast de Kherson ocupado. Segundo a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, civis presos nas áreas de frente de Oleshky e Hola Prystan vivem uma situação desesperadora.
Autoridades ucranianas estimam que até 6.000 civis, incluindo 180 crianças, permanecem na área Oleshky-Hola Prystan. Cerca de 1.700 pessoas, incluindo pelo menos 40 crianças, ainda estariam dentro de Oleshky.
A investigação da ONU indica que o uso generalizado de drones de curto alcance e a presença de minas tornam os deslocamentos em, para e a partir de Oleshky praticamente impossíveis. Isso dificulta fortemente entregas de alimentos e assistência médica.
A última entrega de alimentos registrada em Oleshky até 24 de junho datava de 26 de maio. Isso significa que civis passaram semanas sem acesso regular a suprimentos básicos.
Fome, isolamento e crise sanitária
A responsável pela administração militar ucraniana de Oleshky no exílio, Tetyana Hasanenko, disse à mídia ucraniana que a falta de comida e a impossibilidade de comprar qualquer coisa levam moradores a consumir grãos e massas triturados misturados com bicarbonato e líquido de conservas vencidas.
Essa descrição mostra o colapso completo das condições de vida. Civis não carecem apenas de conforto. Carecem de comida, cuidados médicos, mobilidade e segurança.
Hasanenko também informou que moradores não conseguem enterrar corretamente os mortos, criando graves riscos sanitários. Quando corpos não podem ser enterrados, doenças, contaminação e trauma coletivo se agravam.
O relatório também cita alegações segundo as quais o comando militar russo teria enviado no início de julho um destacamento de recrutas penais para Oleshky, resultando em abusos generalizados contra civis, incluindo violência sexual contra mulheres e menores.
Rússia impede civis de sair
Segundo autoridades ucranianas, forças russas impedem moradores de Oleshky de deixar a área. A Rússia não aceitou a proposta ucraniana de cessar-fogo local que permitiria a organizações internacionais facilitar a evacuação de civis das zonas de frente.
Esse ponto é crucial sob o direito internacional humanitário. Como potência ocupante beligerante, a Rússia deve garantir o fornecimento de alimentos e assistência médica às populações que ocupa, ou facilitar operações humanitárias, incluindo evacuações quando necessário.
O relatório ressalta que a Rússia falhou sistematicamente em cumprir essas obrigações. Pior ainda, parece bloquear deliberadamente civis nessas localidades enquanto os expõe a abusos cometidos por suas forças.
Oleshky torna-se, assim, exemplo extremo de como a ocupação russa transforma civis em população cativa.
Ataques ucranianos complicam administração da Crimeia ocupada
O ISW também indica que a campanha ucraniana de ataques de médio alcance contra infraestruturas russas de combustível, energia e logística na Ucrânia ocupada cria dificuldades crescentes para administradores da ocupação, especialmente na Crimeia ocupada.
Mídias baseadas na Crimeia ocupada e responsáveis de ocupação relataram escassez de combustível, eletricidade e água entre 30 de junho e 6 de julho. Um blogueiro anônimo de Feodosia também relatou problemas de comunicação móvel ligados a cortes de energia, rápida alta dos preços dos alimentos e perturbações na entrega de correspondências.
Essas dificuldades revelam a fragilidade da administração russa na Crimeia ocupada. Desde 2014, a Rússia tem obrigação de responder às necessidades fundamentais da população sob ocupação, mas falhou sistematicamente em fazê-lo.
Os ataques ucranianos agravam essa fraqueza ao mirar infraestruturas que sustentam a presença militar e administrativa russa.
Responsáveis de ocupação podem preparar evacuação
O relatório menciona que partisans ucranianos e fontes internas russas afirmam que a administração de ocupação da Crimeia já estaria preparando a evacuação de alguns órgãos governamentais e responsáveis à medida que a campanha ucraniana de ataques de médio alcance se intensifica.
Se essas informações forem confirmadas, indicariam preocupação crescente dentro do aparato de ocupação.
Uma administração ocupante estável normalmente tenta demonstrar controle, continuidade e confiança. A preparação de evacuação de órgãos administrativos indicaria, ao contrário, que responsáveis russos antecipam deterioração securitária ou logística.
Mesmo sem evacuação imediata, a simples possibilidade desses preparativos pode afetar moral, burocracia local e percepção da estabilidade russa na Crimeia.
Repressão de minorias religiosas
A Rússia também continua perseguindo minorias religiosas nos territórios ocupados. O comitê de investigação russo na Crimeia ocupada abriu um processo criminal contra um residente de Zaprudnoe, acusando-o de financiar atividades extremistas ao coletar fundos para Testemunhas de Jeová.
As autoridades russas também afirmaram ter identificado outros dois moradores de Zaprudnoe por organização de atividades ligadas às Testemunhas de Jeová.
A Rússia proíbe as Testemunhas de Jeová desde 2017 e persegue duramente fiéis com base em acusações de extremismo. Nos territórios ucranianos ocupados, essa repressão se torna ferramenta de controle social.
Minorias religiosas não alinhadas à ortodoxia russa oficial ou ao sistema ideológico de Moscou são particularmente vulneráveis. A lei vira instrumento de perseguição e homogeneização social.
Criação de ecossistema midiático pró-Rússia
As autoridades russas também treinam jovens blogueiros e personalidades midiáticas nos territórios ocupados. O movimento militar-patriótico Yug Molodoy afirmou que ativistas do oblast de Zaporizhzhia ocupado participaram do projeto educacional “Blogueiros do Sul” no parque multimídia “Rússia – Minha História”, em Melitopol ocupado.
O programa forma participantes em gestão de redes sociais, produção de vídeo, edição, engajamento de audiência e desenvolvimento de conteúdo.
Essa iniciativa faz parte dos esforços mais amplos da Rússia para controlar o espaço informacional na Ucrânia ocupada. Depois de restringir mídias não aprovadas por Moscou e desenvolver infraestruturas de comunicação sob controle russo, a ocupação agora busca criar produtores locais de conteúdo pró-Rússia.
Esses jovens criadores podem ser usados para difundir narrativas que glorificam a história russa, legitimam a ocupação e apresentam a integração à Rússia como normal ou desejável.
Informação como ferramenta de ocupação
O controle informacional é pilar de qualquer ocupação duradoura. A Rússia busca controlar não apenas o que os moradores podem ler ou assistir, mas também quem produz as narrativas locais.
Treinar jovens blogueiros permite dar aparência local à propaganda. As mensagens já não vêm apenas de canais oficiais ou responsáveis de ocupação. Podem ser difundidas por rostos jovens, em plataformas sociais, com estilo mais informal.
Esse modelo é especialmente eficaz junto às novas gerações. Transforma propaganda em conteúdo social, vídeo curto, relato cotidiano ou influência local.
Nos territórios ocupados, isso ajuda a Rússia a normalizar a ocupação enquanto marginaliza vozes ucranianas independentes.
Conclusão
A atualização do ISW de 9 de julho de 2026 mostra uma ocupação russa cada vez mais estruturada, coercitiva e integrada. A Rússia militariza crianças e adolescentes, recruta estudantes por meio de formações de drones, toma imóveis sob pretexto de “ausência de proprietário”, redistribui moradias a categorias favorecidas e constrói um ecossistema midiático pró-Rússia.
O relatório também destaca uma crise humanitária extrema em Oleshky, onde milhares de civis, incluindo crianças, permanecem presos em condições catastróficas. Na Crimeia ocupada, ataques ucranianos contra infraestruturas de combustível, energia e logística ampliam as dificuldades da administração russa.
Ponto final
A ocupação russa na Ucrânia não se apoia apenas em armas. Também se apoia na militarização da juventude, no confisco de bens, no controle da informação, na repressão religiosa e na gestão coercitiva de populações civis. Essas políticas buscam transformar os territórios ocupados de forma duradoura, mas também revelam vulnerabilidades crescentes do sistema de ocupação, especialmente diante de crises humanitárias e ataques ucranianos contra infraestruturas russas.