Ucrânia intensifica ataques em profundidade contra a Rússia e suas redes logísticas
A Ucrânia continua expandindo sua campanha de ataques de médio e longo alcance contra a Rússia, mirando não apenas posições militares próximas da linha de frente, mas também infraestruturas estratégicas situadas bem dentro do território russo. Na noite de 21 para 22 de junho de 2026, as forças ucranianas realizaram um novo ataque perto de Moscou, o terceiro contra a área da capital russa em uma semana.
Segundo o Estado-Maior ucraniano, as forças ucranianas atingiram o Dubna Space Communications Center, localizado em Dubna, no oblast de Moscou, a noroeste da capital e a cerca de 540 quilômetros da fronteira internacional entre Rússia e Ucrânia. Esse centro é um importante hub terrestre que conecta satélites a redes de comunicação terrestres e gerencia links satelitais dentro da Rússia e no exterior.
Esse ataque faz parte de uma sequência mais ampla: a Ucrânia tenta impor um custo operacional mais alto à Rússia, forçar Moscou a dispersar suas defesas aéreas e perturbar redes de logística, combustível, comunicação e produção militar que sustentam o esforço de guerra russo.
Novo ataque perto de Moscou
O ataque contra o centro de comunicações espaciais de Dubna é importante tanto simbolicamente quanto operacionalmente. Simbolicamente, mostra que a Ucrânia consegue alcançar infraestruturas sensíveis na região de Moscou. Operacionalmente, mira um centro ligado a comunicações por satélite, área essencial para redes civis, militares e governamentais modernas.
Imagens geolocalizadas publicadas em 22 de junho mostram fumaça subindo em Dubna. A empresa-mãe do centro, a State Space Communications Company, reconheceu que um ataque ucraniano de drones em larga escala atingiu o local, embora tenha afirmado que comunicações e transmissões televisivas não foram interrompidas.
Moscou tentou minimizar o impacto. O prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, afirmou que as forças russas derrubaram 84 drones a caminho da capital ao longo do dia e que os ataques não causaram danos. Ainda assim, a repetição de ataques ao redor da capital russa indica que a defesa aérea de Moscou está sob pressão crescente.
A Ucrânia já havia atingido a área de Moscou em 15-16 de junho e 17-18 de junho, incluindo a refinaria de petróleo de Moscou.
Moscou reforça suas defesas aéreas
Autoridades russas teriam tentado recentemente reforçar a cobertura de defesa aérea ao redor de Moscou, possivelmente em detrimento de algumas áreas da linha de frente. Analistas open source estimaram que imagens de satélite de 4 de junho mostram a Rússia iniciando a construção de uma nova instalação de defesa S-400 a oeste de Moscou, no parque histórico e natural Moskvoretsky.
O local ficaria em um dos pontos mais altos a oeste da capital, o que o tornaria adequado para vigilância e interceptação aérea. Seu tamanho e formato seriam semelhantes aos de outros sites S-400 próximos de Moscou.
Outras informações indicam que a Rússia teria deslocado um sistema Pantsir de uma área não especificada da frente para instalá-lo perto da refinaria de petróleo de Moscou, no sudeste da cidade. O sistema teria sido montado em uma torre e equipado com uma gaiola de proteção semelhante às observadas perto da linha de frente.
Esse detalhe é revelador. Se a Rússia está realocando sistemas de defesa aérea da frente para Moscou, isso significa que os ataques ucranianos criam uma competição direta entre proteger a capital, defender infraestruturas energéticas e cobrir forças russas na Ucrânia.
Sinais de escassez de mísseis de defesa aérea
O relatório também indica que o sistema Pantsir deslocado para perto da refinaria de Moscou parecia contar com apenas dois mísseis em um lado, em vez da configuração padrão completa. Isso pode apontar para escassez de mísseis interceptadores dos sistemas Pantsir.
Fontes ucranianas citadas pela CBS News já haviam indicado que a Rússia sofre escassez de mísseis S-300, com sanções ocidentais limitando o acesso a componentes necessários. Se essas dificuldades também atingem outros sistemas, como o Pantsir, a Rússia enfrenta um problema mais amplo de sustentabilidade da defesa aérea.
Essa situação é importante para a dinâmica da guerra. A Rússia precisa proteger uma enorme profundidade territorial: bases militares, refinarias, depósitos, fábricas de defesa, pontes, ferrovias, aeródromos, portos, instalações energéticas e centros de comunicação. Quanto mais a Ucrânia aumenta o alcance e o volume de seus ataques, mais Moscou precisa escolher o que proteger primeiro.
Esse dilema é exatamente um dos objetivos da campanha ucraniana.
Ucrânia expande campanha de ataques intermediários
Além dos ataques em profundidade contra a Rússia, a Ucrânia também intensifica seus ataques de médio alcance nos territórios ocupados. Análises da Meduza e da organização GeoConfirmed indicam que as forças ucranianas aumentaram fortemente a profundidade mediana de seus ataques em maio e junho de 2026.
Enquanto ataques de meses anteriores frequentemente miravam alvos a poucos quilômetros da frente, os ataques recentes agora alcançam várias dezenas de quilômetros em profundidade. Essa evolução muda a pressão sobre a logística russa.
O analista francês Clement Molin verificou imagens confirmando que pelo menos 500 caminhões e veículos russos foram atingidos na Ucrânia ocupada entre 1º de maio e 18 de junho. Desde janeiro de 2026, imagens geolocalizadas confirmam 270 ataques ucranianos desse tipo.
Esses números mostram uma campanha estruturada contra a mobilidade russa. Caminhões, veículos logísticos e eixos rodoviários são essenciais para transportar munição, combustível, drones, peças de reposição, alimentos e tropas. Atingi-los regularmente pode desacelerar operações russas mesmo quando a linha de frente não muda imediatamente.
Rotas russas para a Crimeia estão sob pressão
A Ucrânia mirou fortemente áreas de retaguarda do agrupamento oriental russo em maio de 2026, especialmente nas direções de Huliaipole e Oleksandrivka. Os ataques atingiram com intensidade trechos da rodovia M-14 Rostov-Crimeia, no sudoeste do oblast de Donetsk e no leste do oblast de Zaporizhzhia.
Em junho, a intensidade dos ataques nessas áreas teria diminuído, com a Ucrânia deslocando parte do esforço para oeste, em direção ao oblast de Kherson ocupado e à Crimeia ocupada.
Esse deslocamento é lógico. A Crimeia continua sendo um nó logístico estratégico para o Exército russo. Pontes, portos, balsas, estradas, depósitos de combustível e ferrovias que ligam a Rússia à Crimeia e ao sul ocupado da Ucrânia são essenciais para sustentar as forças russas.
O Estado-Maior ucraniano informou que o ataque contra o porto de Kavkaz, no krai de Krasnodar, danificou infraestrutura portuária e duas balsas. A Rússia usa esse porto para abastecer suas forças no sul da Ucrânia.
Escassez de combustível na Rússia se agrava
Os ataques ucranianos contra refinarias, depósitos, portos e linhas logísticas agravam a escassez de combustível na Rússia e nos territórios ocupados. Desde março de 2026, a Ucrânia intensificou significativamente seus ataques contra a infraestrutura petrolífera russa e as redes logísticas.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu em 22 de junho que os preços dos combustíveis estão subindo em meio a escassez persistente. Ele afirmou que o governo russo coordena esforços com companhias petrolíferas para resolver a situação.
Peskov também disse que as autoridades russas tentam minimizar as consequências dos ataques ucranianos contra a Crimeia e garantir o abastecimento de combustível à população. Ainda assim, as medidas adotadas no terreno mostram que a situação continua tensa.
As autoridades russas estão introduzindo mais restrições às compras de gasolina e incentivando civis a reduzir deslocamentos privados. Na Crimeia ocupada, autoridades recentemente suspenderam vendas de gasolina para entidades não estatais e interromperam operações de balsas.
Crimeia ocupada sente os efeitos logísticos
A Crimeia ocupada está particularmente exposta. As autoridades russas fecharam temporariamente o tráfego na ponte do Estreito de Kerch em 22 de junho, provavelmente devido a ataques ucranianos próximos. A ponte continua sendo uma artéria importante ligando a Rússia à Crimeia ocupada.
O governador de ocupação da Crimeia, Sergei Aksyonov, anunciou a suspensão de todos os acampamentos infantis na Crimeia ocupada até 1º de setembro de 2026. Essa medida, mesmo apresentada como administrativa ou de segurança, reflete a pressão crescente sobre a região.
As restrições sobre balsas, combustível e deslocamentos mostram que os ataques ucranianos não afetam apenas as forças russas. Eles modificam o ambiente logístico geral em que as autoridades de ocupação precisam operar.
Quanto mais a Rússia precisa dedicar recursos para reparar, contornar e proteger suas linhas para a Crimeia, menos consegue alocar esses recursos livremente na frente.
Ataque contra indústria militar russa em Voronezh
As forças ucranianas também atingiram uma empresa industrial de defesa russa em Voronezh. O Estado-Maior ucraniano afirmou que mísseis de cruzeiro lançados do ar e de alta precisão foram usados contra uma instalação que produz componentes para mísseis russos.
Segundo informações ucranianas, a fábrica alvo produz componentes para mísseis de cruzeiro Kh-101, mísseis Iskander-K e sistemas de defesa aérea Pantsir-S1. Imagens geolocalizadas mostram colunas de fumaça perto da Voronezh Semiconductor Devices Plant.
O governador do oblast de Voronezh, Aleksandr Gusev, afirmou que a defesa aérea russa derrubou 18 drones e vários alvos aéreos rápidos não especificados sobre a cidade, embora tenha reconhecido que uma instalação de produção foi danificada.
Fontes russas especularam sobre a arma usada, citando um missile Storm Shadow ou uma munição americana ERAM. O ISW afirma não conseguir confirmar o tipo de arma empregado.
Objetivo ucraniano: reduzir a capacidade de ataque russa
Atingir uma fábrica que produz componentes para Kh-101, Iskander-K e Pantsir-S1 é coerente com a estratégia ucraniana. Esses sistemas estão diretamente ligados à capacidade russa de realizar ataques contra a Ucrânia e defender suas próprias infraestruturas.
O Kh-101 é um míssil de cruzeiro usado pela Rússia em ataques de longo alcance contra a Ucrânia. O Iskander-K também é uma arma importante no arsenal russo. O Pantsir-S1, por sua vez, serve para defender locais contra drones, mísseis e outras ameaças aéreas.
Ao mirar componentes desses sistemas, a Ucrânia tenta atacar a cadeia de produção, e não apenas armas já implantadas. Isso pode ter efeito mais duradouro se a Rússia tiver dificuldade para substituir componentes destruídos, especialmente por causa de sanções e limitações industriais.
Essa abordagem mostra que a Ucrânia não está apenas defendendo seu território. Ela busca reduzir a capacidade industrial russa de sustentar a guerra.
Rússia continua ataques contra a Ucrânia
Enquanto a Ucrânia atinge alvos russos, a Rússia continua seus ataques de mísseis e drones contra a Ucrânia. Na noite de 21 para 22 de junho, as forças russas lançaram um míssil balístico Iskander-M a partir da Crimeia ocupada e 88 drones de diferentes tipos, incluindo Shahed, Gerbera, Italmas e Parodiya.
A Força Aérea ucraniana informou ter abatido 79 drones. O míssil balístico e cinco drones atingiram seis locais, enquanto destroços de drones caíram em nove áreas.
Autoridades ucranianas relataram danos a infraestruturas civis, energéticas e educacionais nos oblasts de Chernihiv, Mykolaiv, Odesa, Zaporizhzhia e Sumy. O Ministério da Energia da Ucrânia informou que os ataques russos provocaram apagões em várias regiões, incluindo Donetsk, Kherson, Sumy, Kharkiv, Mykolaiv, Chernihiv e Zaporizhzhia.
A Rússia também atingiu vários navios mercantes civis no Mar Negro na noite de 21 para 22 de junho.
Guerra de drones domina várias frentes
Os drones continuam no centro da evolução tática. Na direção de Vovchansk, a nordeste de Kharkiv, um operador ucraniano de sistemas não tripulados afirmou que a área apresenta uma das maiores densidades de drones por quilômetro quadrado em toda a frente.
A Rússia estaria usando essa direção para testar novos sistemas e táticas, incluindo drones de fibra óptica, assaltos de motocicleta e infiltrações. Mesmo que essa área não tenha necessariamente o maior número de ataques, ela concentraria um volume muito alto de drones russos.
Nas direções de Pokrovsk e Kostyantynivka, as forças russas também usam cada vez mais drones FPV para interditar a logística ucraniana. Comandantes ucranianos relatam que esses drones podem atingir alvos entre 20 e 30 quilômetros, complicando abastecimento e deslocamentos.
A guerra se torna, portanto, cada vez mais uma competição entre vigilância, drones, contramedidas, artilharia, ataques de precisão e guerra eletrônica.
Kostyantynivka segue como zona crítica
A situação em Kostyantynivka continua séria. Militares ucranianos indicaram que a situação não é tão catastrófica quanto afirmam autoridades russas, mas continua difícil. A cidade é descrita como uma zona cinzenta contestada, com infiltrações russas ao sul, ao leste e nas bordas do norte.
Soldados ucranianos afirmam que os avanços russos continuam muito lentos, muitas vezes inferiores a 100 metros por dia, em grande parte por causa dos ataques de drones ucranianos. Operadores russos buscariam principalmente identificar e atingir equipes de drones ucranianos para permitir que a infantaria russa atravesse zonas perigosas sem ser detectada.
Essa tática se parece com a usada pela Rússia na tomada de Pokrovsk: infiltração, pressão constante, ataque aos operadores de drones ucranianos e avanço lento em zonas urbanas contestadas.
O Kremlin, paralelamente, tenta apresentar a linha de frente como em colapso, às vezes com imagens que poderiam ter sido alteradas por inteligência artificial, segundo o ISW.
Rússia tenta avançar em direção a Dobropillia
Ao norte de Pokrovsk, as forças russas tentam romper em direção a Dobropillia. Um porta-voz ucraniano afirmou que as forças russas procuram avançar a partir de duas direções, especialmente rumo a Rodynske e Bilytske, ao norte de Pokrovsk.
O objetivo russo parece ser avançar em direção à cintura fortificada ucraniana a partir da direção de Pokrovsk. Isso mostra que Moscou ainda tenta explorar ganhos no leste da Ucrânia, mesmo que a intensificação dos ataques ucranianos em profundidade complique sua logística.
A situação, portanto, é dupla: a Rússia continua ofensivas locais e infiltrações, enquanto a Ucrânia tenta atingir as redes de retaguarda que permitem manter essas ofensivas.
Conclusão
A avaliação de 22 de junho de 2026 mostra uma guerra que se estende cada vez mais em profundidade estratégica. A Ucrânia realizou um novo ataque perto de Moscou contra o centro de comunicações espaciais de Dubna, atingiu uma empresa industrial de defesa em Voronezh e continua atacando estradas, portos, pontes, refinarias e depósitos que sustentam a logística russa.
Esses ataques agravam a escassez de combustível, forçam Moscou a realocar defesas aéreas, fragilizam rotas para a Crimeia ocupada e impõem novas escolhas ao Exército russo. Em resposta, a Rússia mantém ataques massivos de drones e mísseis contra a Ucrânia, enquanto tenta avançar nas direções de Kupiansk, Pokrovsk e Kostyantynivka.
Ponto final
A Ucrânia tenta transformar a guerra em um problema de profundidade para a Rússia. Ao atingir Moscou, Voronezh, Crimeia, portos, estradas e refinarias, Kyiv força Moscou a proteger um espaço imenso com recursos limitados de defesa aérea. A linha de frente continua ativa, mas a retaguarda russa está cada vez mais vulnerável.