Estados Unidos e Irã retomam conversas na Suíça sobre Hormuz e programa nuclear
Estados Unidos e Irã devem retomar no domingo, na Suíça, uma nova rodada de negociações sobre a implementação do acordo destinado a encerrar a guerra. As delegações dos dois países seguem para o complexo de Burgenstock, perto de Lucerna, em um clima ainda tenso após novas fricções em torno do Estreito de Hormuz e do cessar-fogo no Líbano.
A delegação iraniana chegou à cidade-sede suíça várias horas antes do vice-presidente americano JD Vance, que deve liderar a delegação dos Estados Unidos. Antes de partir para a Europa, Vance declarou que poderia permanecer “apenas um ou dois dias” e que esperava avançar em dois dossiers principais: a questão nuclear iraniana e o cessar-fogo no Líbano.
As discussões ocorrem poucos dias após a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerã. O texto inicial prevê um período de 60 dias destinado a estabilizar a situação, reabrir o Estreito de Hormuz à navegação comercial e criar as condições para um acordo final mais amplo. Mas as tensões recentes mostram que a implementação do documento será pelo menos tão difícil quanto sua assinatura.
Burgenstock vira centro da diplomacia Irã-EUA
A escolha do complexo de Burgenstock, na Suíça, confirma o papel da diplomacia discreta nessa fase de negociação. A Suíça, já associada a vários canais de mediação internacional, recebe uma reunião técnica e política que deve detalhar os mecanismos de execução do memorando.
Do lado americano, JD Vance será acompanhado por Jared Kushner e Steve Witkoff. Do lado iraniano, a delegação será liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi. Também incluirá autoridades de segurança, banco central e setor petrolífero.
A presença desses perfis mostra que as conversas não se limitarão a um simples diálogo diplomático. Os negociadores terão de tratar de questões militares, nucleares, financeiras, energéticas e marítimas. O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif, mediador do processo, também deve ir a Burgenstock para se reunir com as duas delegações.
O Paquistão busca consolidar seu papel de mediador central após apoiar a assinatura do memorando inicial. Sua presença ressalta que a negociação continua frágil e exige arbitragem constante entre as posições americana e iraniana.
Vance quer avançar no nuclear e no Líbano
JD Vance identificou claramente as duas prioridades americanas: o programa nuclear iraniano e o cessar-fogo no Líbano. Segundo ele, esses dois temas são os “grandes assuntos” nos quais as discussões deverão se concentrar.
Sobre o Líbano, Vance afirmou que a situação estava melhorando e que os combates estavam desacelerando. Ele reconheceu, no entanto, que o problema continua complexo, explicando que às vezes basta um ator atirar para que outro responda, criando uma dinâmica difícil de interromper. O objetivo americano é, portanto, manter o silêncio das armas por tempo suficiente para que o cessar-fogo se sustente.
Essa leitura evita atribuir diretamente a responsabilidade por toda a escalada recente a um único lado. Autoridades israelenses acusam o Hezbollah de ter violado a trégua por meio de ataques repetidos contra tropas israelenses, incluindo um que matou uma tripulação de tanque com quatro membros. Israel depois realizou ataques mortais contra alvos do Hezbollah.
O Irã, por sua vez, acusa Israel de ter violado o memorando com os Estados Unidos e também o cessar-fogo no Líbano. Essa divergência de narrativa complica a implementação do acordo, já que cada parte tenta impor sua própria interpretação das responsabilidades.
Hormuz volta a ser ponto de tensão
O Estreito de Hormuz continua sendo um dos dossiers mais sensíveis. O Irã afirmou ter fechado novamente a passagem estratégica após os ataques israelenses no Líbano. O Exército americano respondeu que essa afirmação era falsa, que o tráfego continuava fluindo pela rota marítima e que o Irã não controla o estreito.
Essa disputa mostra que Hormuz permanece como instrumento de pressão política. Mesmo quando nenhuma fechamento efetivo é confirmado, a simples ameaça já basta para preocupar mercados de energia, transportadoras marítimas e países importadores de petróleo.
O Estreito de Hormuz é vital para os fluxos petrolíferos do Golfo. Uma perturbação duradoura poderia reacender o prêmio de risco no petróleo, elevar custos de seguro marítimo e complicar a retomada das exportações regionais. Por isso, a estabilidade dessa passagem será um teste central da credibilidade do acordo.
A questão não é apenas saber se o estreito está aberto hoje. Também é determinar quem define as regras, quais tarifas podem ser impostas e quais garantias de segurança são oferecidas aos navios comerciais.
Trump ameaça impor pedágios americanos
Donald Trump aumentou a pressão antes das discussões na Suíça ao ameaçar impor pedágios americanos no Estreito de Hormuz se um acordo final com o Irã não for concluído dentro de 60 dias.
O presidente americano lembrou que o acordo inicial prevê circulação sem pedágio durante esse período. O Irã declarou que respeitará essa disposição, mas afirmou que os navios terão de coordenar sua passagem com os Guardas Revolucionários e que taxas de passagem poderão ser criadas após os 60 dias.
Trump respondeu que não haverá “nenhum pedágio” após o fim do período, salvo se forem impostos pelos Estados Unidos e em benefício dos Estados Unidos. Ele apresentou eventuais tarifas como uma forma de reembolso pelos “serviços prestados” por Washington como garantidor da segurança regional.
Essa posição é politicamente significativa. Trump enfrenta críticas internas sobre a forma como o memorando trata os pedágios em Hormuz. O texto garante apenas 60 dias de passagem sem cobrança e não parece excluir explicitamente taxas futuras. A ameaça americana busca, portanto, impedir que o Irã transforme Hormuz em fonte de receita ou em instrumento permanente de pressão.
Programa nuclear iraniano no centro das conversas
O primeiro objetivo americano nas negociações seria obter o acordo do Irã para o retorno dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica aos locais nucleares iranianos. Essas inspeções seriam as primeiras desde a guerra de 12 dias de junho de 2025.
Os locais envolvidos poderiam incluir Fordo, Natanz e Isfahan, que foram bombardeados pelos Estados Unidos no ano passado. Segundo informações reportadas, Washington estaria disposto a desbloquear vários bilhões de dólares em ativos iranianos mantidos no Qatar em troca do consentimento de Teerã para o retorno dos inspetores.
Esses recursos seriam destinados à compra de alimentos, medicamentos e outras necessidades humanitárias. Essa abordagem permitiria aos Estados Unidos apresentar o desbloqueio de ativos como uma medida controlada e humanitária, e não como uma concessão financeira ampla.
Mas o dossier nuclear continua extremamente sensível. A AIEA estima que a maior parte dos 440 quilos de urânio iraniano enriquecido a 60% esteja armazenada em Isfahan, com quantidades menores em Natanz e Fordo. O enriquecimento a 60% permanece próximo do nível militar, o que torna a verificação um tema central.
Papel esperado de Rafael Grossi
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, deve participar das discussões técnicas de domingo. Sua presença seria lógica, porque a questão nuclear exige mecanismos precisos, verificáveis e aceitáveis para os dois lados.
Um acordo político não basta para garantir conformidade nuclear. É preciso definir acesso aos locais, calendário de inspeções, equipamentos de monitoramento, formas de declaração e tratamento dos estoques existentes de urânio enriquecido.
O Irã já indicou que se recusa a enviar seu estoque de urânio altamente enriquecido ao exterior. Essa posição complica as opções de compromisso. Uma solução poderia passar por vigilância reforçada no local, congelamento de certas atividades ou mecanismo de controle internacional mais rigoroso. Mas cada uma dessas opções cria problemas de soberania para Teerã e de confiança para Washington.
O papel da AIEA será, portanto, determinante para transformar uma promessa política em compromisso técnico.
Cessar-fogo no Líbano continua frágil
As conversas estavam inicialmente previstas para começar na sexta-feira, mas foram adiadas por causa das fricções ligadas aos combates entre Israel e Hezbollah no Líbano. Segundo informações reportadas, a crise teria sido temporariamente resolvida depois que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pediu ao Exército que “segurasse o fogo” no Líbano.
Um responsável americano teria indicado que Washington pediu a Israel que cessasse o fogo no Líbano, exceto em legítima defesa. Essa precisão mostra que os Estados Unidos querem impedir que a frente libanesa faça fracassar as negociações com o Irã.
Israel não participou da negociação do memorando e Netanyahu se distanciou dele. Ainda assim, a cláusula inicial do texto, que prevê o fim permanente da guerra e exclui qualquer retomada, parece vincular não apenas Estados Unidos e Irã, mas também seus aliados.
Esse é um dos pontos mais contestados por autoridades israelenses. Várias delas avaliam que o acordo não resolve os objetivos centrais da guerra, especialmente a eliminação dos programas nuclear e de mísseis balísticos iranianos e a criação de condições que poderiam levar à queda do regime.
Israel teme acordo limitado demais
A posição israelense continua crítica porque o memorando não responde plenamente a suas expectativas estratégicas. Para Israel, o perigo iraniano não se limita ao enriquecimento nuclear. Também inclui mísseis balísticos, apoio a grupos armados regionais e capacidade de Teerã de reconstruir seus meios militares.
O acordo atual parece mais centrado no cessar-fogo, em Hormuz, nas inspeções nucleares e no alívio controlado de algumas pressões financeiras. Ele não resolve diretamente o programa de mísseis, que o Irã se recusa a colocar na mesa de negociações.
Essa divergência cria tensão entre Washington e Jerusalém. Os Estados Unidos buscam estabilizar a região e reduzir riscos energéticos. Israel quer garantir que a ameaça iraniana não seja apenas congelada, mas realmente neutralizada.
Se Israel considerar que o acordo enfraquece sua segurança, a implementação regional poderá continuar frágil.
Ativos congelados como moeda de troca
O possível desbloqueio de vários bilhões de dólares em ativos iranianos mantidos no Qatar é elemento-chave das negociações. Esses recursos poderiam servir como incentivo para que Teerã aceite o retorno dos inspetores da AIEA.
A questão é como enquadrar esses recursos. Washington quer evitar a imagem de um pagamento direto sem contrapartida. A ideia de usar os fundos para necessidades humanitárias — alimentos, medicamentos e bens essenciais — busca limitar críticas e tornar o compromisso mais aceitável politicamente.
Mas, nos Estados Unidos, qualquer desbloqueio de ativos iranianos pode provocar forte reação. Opositores do acordo podem afirmar que os recursos fortalecem indiretamente o regime iraniano, mesmo que sejam oficialmente destinados a compras humanitárias.
Para o Irã, o desbloqueio de ativos é essencial. Ele permitiria obter benefício econômico concreto durante o período de negociação e justificar o acordo perante a opinião pública interna.
O que os mercados devem acompanhar
Os mercados devem acompanhar primeiro o status real do Estreito de Hormuz. Tráfego marítimo, custos de seguro e declarações militares serão mais importantes que anúncios políticos.
O segundo ponto envolve as inspeções nucleares. Se o Irã aceitar o retorno da AIEA a Fordo, Natanz e Isfahan, isso poderá fortalecer a credibilidade do acordo. Uma recusa ou acesso limitado prolongaria a incerteza.
O terceiro elemento é o cessar-fogo no Líbano. Qualquer nova escalada entre Israel e Hezbollah pode atrasar ou enfraquecer as discussões.
O quarto fator é a questão dos pedágios. Se as regras de passagem em Hormuz continuarem ambíguas após 60 dias, os mercados de energia poderão manter um prêmio de risco.
Por fim, investidores deverão acompanhar as reações políticas em Israel, nos Estados Unidos e no Irã. Um acordo contestado por aliados ou instituições internas será mais difícil de aplicar.
Conclusão
Estados Unidos e Irã retomam negociações na Suíça para tentar transformar seu memorando em mecanismo operacional. JD Vance liderará a delegação americana, enquanto Mohammad Bagher Ghalibaf e Abbas Araghchi conduzirão a equipe iraniana. O Paquistão continuará exercendo papel de mediador, com a presença esperada do primeiro-ministro Shehbaz Sharif.
As conversas tratarão principalmente do retorno das inspeções nucleares da AIEA, do cessar-fogo no Líbano, da reabertura duradoura de Hormuz e do destino dos ativos iranianos congelados. Mas as tensões continuam fortes: o Irã fala em futuras regras de passagem em Hormuz, Trump ameaça impor pedágios americanos se nenhum acordo final for alcançado, e Israel critica os limites do memorando.
Ponto final
A reunião de Burgenstock será um teste central para o acordo Irã-EUA. A assinatura do memorando reduziu o risco imediato de guerra, mas as questões mais sensíveis permanecem abertas: nuclear, Hezbollah, Israel, ativos congelados e controle de Hormuz. Os próximos 60 dias determinarão se o acordo se tornará uma paz duradoura ou apenas uma pausa tática.