A economia dos EUA provavelmente não crescerá 4% a 5% neste ano, diz ex-conselheiro de Trump
O otimismo exibido pela administração Trump em relação à trajetória da economia americana continua gerando dúvidas, inclusive entre ex-integrantes do próprio núcleo econômico do presidente. Gary Cohn, ex-principal conselheiro econômico de Donald Trump e atualmente vice-presidente da IBM, deixou claro que não concorda com a previsão de que os Estados Unidos possam crescer entre 4% e 5% neste ano.
Durante uma participação no Semafor World Economy conference, Cohn foi direto ao afirmar que não compartilha dessa expectativa para 2026. Sua discordância é relevante não apenas por sua proximidade passada com Trump, mas também porque ele não fala como alguém que vê a economia americana de forma pessimista em todos os aspectos. Pelo contrário, sua leitura segue relativamente positiva em relação a vários motores de crescimento, como a geração de empregos, nichos bem definidos de demanda e ganhos de produtividade ligados à inteligência artificial.
Em outras palavras, Cohn não está dizendo que a economia vai mal. O que ele está dizendo é que as expectativas vendidas pela administração parecem altas demais em relação ao que o ciclo atual realmente pode entregar. Essa nuance é central. Ela mostra que é possível ter uma leitura construtiva da economia sem aceitar projeções excessivamente ambiciosas.
Uma divergência importante em relação ao discurso oficial
A posição de Gary Cohn chama atenção porque vem de alguém que ocupou um dos cargos mais altos da política econômica na primeira administração Trump. Ele comandou o National Economic Council no primeiro ano do primeiro mandato, o que o coloca em uma categoria especial: a dos ex-aliados que conhecem por dentro os mecanismos, os objetivos e os limites reais da política econômica do presidente.
Quando alguém com esse perfil rejeita publicamente a ideia de crescimento entre 4% e 5%, a mensagem ganha mais peso do que teria se viesse de um opositor político comum. Cohn não fala de fora com uma postura puramente partidária. Ele fala conhecendo os instrumentos reais de política e as restrições concretas da economia americana.
Sua resposta, curta, mas clara, tem justamente essa força. Diante da pergunta se acreditava em crescimento de 4% a 5% neste ano, ele respondeu que não. Em poucas palavras, isso equivale a questionar um dos pilares mais ambiciosos do discurso econômico da administração atual.
Discordância no número, não na direção geral da economia
Ainda assim, seria errado interpretar a fala de Cohn como uma visão sombria da economia dos Estados Unidos. Seu discurso não é o de alguém que prevê um colapso ou uma recessão iminente. Pelo contrário, ele continua relativamente confiante em vários componentes da atividade.
Cohn acredita, por exemplo, que a economia deve seguir criando empregos. Isso importa porque mostra que, na sua avaliação, a base do mercado de trabalho continua de pé. Dentro da hierarquia dos indicadores econômicos, o emprego permanece como um dos sinais mais relevantes. Enquanto a economia continuar gerando vagas e absorvendo mão de obra, é difícil falar em verdadeira estagnação.
Mas entre uma economia que ainda cria empregos e uma economia capaz de entregar 4% a 5% de crescimento anual, existe uma distância enorme. E Cohn parece justamente considerar que essa distância está sendo subestimada pelo governo.
Ainda existem bolsões de demanda relevantes
Um dos aspectos mais interessantes da análise de Cohn é sua referência a nichos de demanda que continuam sustentando a atividade. Ele menciona, por exemplo, a necessidade de trabalhadores ligados à construção de centros de dados, incluindo profissões muito concretas, como trabalhadores especializados em cimento.
Esse detalhe é revelador. Ele mostra que, na economia atual, parte da expansão não vem apenas do consumo tradicional ou do setor de serviços, mas também de grandes investimentos ligados à nova infraestrutura digital. Os data centers se tornaram um dos grandes polos de investimento do momento, impulsionados pela expansão da nuvem, pela inteligência artificial, pelo processamento intensivo e pela necessidade crescente de armazenamento.
E por trás dessa infraestrutura tecnológica altamente visível, existe uma economia física bastante concreta: construção, energia, manutenção, materiais, transporte e trabalho especializado. Quando Cohn menciona a demanda por trabalhadores do cimento em data centers, ele lembra justamente que a revolução digital continua tendo um impacto material profundo sobre a economia americana.
Isso pode sustentar emprego e investimento. Mas, novamente, não significa automaticamente crescimento nacional na faixa de 4% a 5%.
A inteligência artificial segue como vetor de produtividade
Gary Cohn também destaca os ganhos de produtividade associados à inteligência artificial. Esse ponto se tornou cada vez mais central no debate econômico dos Estados Unidos. A IA é frequentemente apresentada como um dos poucos vetores capazes de elevar de forma duradoura o potencial de crescimento sem depender apenas de mais consumo ou mais endividamento.
Do ponto de vista econômico, esse argumento é consistente. Se as empresas realmente conseguirem produzir mais com a mesma quantidade de trabalho ou capital graças à automação, à otimização de processos e a ferramentas mais sofisticadas de decisão, então o potencial de crescimento da economia pode melhorar.
Mas mesmo dentro dessa leitura construtiva, permanece uma pergunta importante: com que velocidade esses ganhos de produtividade vão se espalhar? Porque entre a promessa teórica da IA e seu impacto mensurável sobre o crescimento agregado do PIB, a distância costuma ser grande.
Cohn parece reconhecer esse motor de crescimento, mas se recusa a usá-lo como justificativa para validar rapidamente projeções muito agressivas. Em outras palavras, a IA pode ajudar a economia. Mas ela não garante sozinha uma explosão do crescimento já neste ano.
Um chamado implícito a uma leitura mais realista do ciclo
No fundo, a mensagem de Cohn pode ser resumida de forma bastante simples: a economia americana ainda tem motores importantes, mas isso não basta para justificar previsões excessivamente ambiciosas. Essa é uma postura bastante típica de formuladores de política econômica mais experientes. Eles sabem que o crescimento sustentável raramente depende de um único fator e que ele se constrói em um ambiente onde política monetária, confiança, investimento, oferta de trabalho, custo de energia e contexto geopolítico interagem o tempo todo.
No momento atual, várias dessas variáveis continuam incertas. O cenário internacional ainda é tenso. Os efeitos econômicos da guerra com o Irã não desapareceram totalmente. Os mercados seguem muito atentos à inflação e aos juros. E, embora partes importantes da economia resistam bem, isso não quer dizer que todo o sistema esteja preparado para acelerar para um ritmo excepcional.
A recusa de Cohn em aderir à previsão de 4% a 5% se parece, portanto, menos com um ataque político e mais com um retorno à disciplina analítica.
Kevin Hassett mantém uma visão muito mais agressiva
Do outro lado, Kevin Hassett, atual diretor do National Economic Council, continua defendendo uma visão bem mais expansiva. Segundo ele, as políticas de Trump colocam a economia americana na rota de uma nova era de ouro do crescimento. Ele também trata a guerra com o Irã como uma distração temporária, e não como um obstáculo estrutural.
Essa diferença de leitura é importante. Hassett destaca especialmente a estabilidade da inflação subjacente, aquela que exclui energia e alimentos, como prova de que a base econômica permanece sólida. Dentro dessa visão, as turbulências geopolíticas não alterariam de forma decisiva a trajetória estrutural do país.
Mas a divergência entre Hassett e Cohn está menos em saber se a economia pode continuar crescendo e mais no tamanho dessa expansão. E é justamente aí que a cautela de Cohn ganha relevância. Ele não nega os motores positivos. Apenas contesta a ideia de que eles sejam suficientes para levar o PIB americano a um ritmo tão forte já neste ano.
O debate sobre imigração qualificada continua relevante
Outro ponto interessante levantado por Cohn é sua defesa do programa de vistos H-1B, que permite a entrada de trabalhadores qualificados nos Estados Unidos. A administração Trump tentou restringir esse canal, mas Cohn o descreve como um fator positivo para o crescimento do PIB.
Esse argumento toca em uma questão econômica muito importante. Em uma economia avançada, sustentada por tecnologia, inovação, pesquisa e serviços de alto valor agregado, a disponibilidade de mão de obra qualificada é fundamental. Restringir esse recurso pode até gerar ganhos políticos em determinados segmentos, mas também pode limitar a expansão das empresas mais dinâmicas.
Ao defender o H-1B, Cohn lembra implicitamente que uma estratégia de crescimento forte não pode depender apenas de slogans industriais ou de incentivos tributários. Ela também precisa considerar a capacidade do país de atrair, formar e reter talentos capazes de sustentar os setores mais produtivos da economia.
Essa observação reforça ainda mais sua posição geral: sim, existem motores importantes. Mas, para transformá-los em crescimento forte, é preciso olhar para as restrições reais da economia, inclusive no mercado de trabalho qualificado.
Por que 4% a 5% continua sendo uma meta muito elevada
Para entender a importância desse debate, vale lembrar que crescimento de 4% a 5% nos Estados Unidos não é uma meta trivial. Trata-se de um ritmo muito alto para uma economia já desenvolvida, enorme e relativamente madura.
Alcançar esse nível normalmente exige uma combinação rara: consumo forte, investimento elevado, ganhos rápidos de produtividade, mercado de trabalho robusto, condições financeiras favoráveis e ausência de choques externos relevantes. Mesmo quando parte desses fatores está presente, raramente todos eles se alinham ao mesmo tempo.
É provavelmente esse realismo que orienta a cautela de Cohn. Ele vê os pontos de apoio, mas também enxerga as limitações implícitas: velocidade de adoção da IA, incertezas geopolíticas, restrições monetárias, tensões logísticas e escolhas políticas envolvendo imigração e capital humano.
Uma economia ainda sólida, mas longe de ser milagrosa
No pano de fundo, a fala de Gary Cohn revela algo mais amplo sobre o momento atual da economia americana. Ela não parece fraca no sentido de um colapso iminente. Mas também não parece forte o suficiente para justificar sem questionamento os cenários mais exuberantes.
É justamente em momentos assim que a diferença entre narrativa e fundamento fica mais visível. Os responsáveis políticos enfatizam os melhores dados para sustentar uma visão expansiva. Já ex-formuladores de política ou analistas mais independentes tendem a lembrar que uma economia pode estar bem sem necessariamente entrar em uma fase extraordinária.
A fala de Cohn se encaixa claramente nessa segunda linha. Ele não desmonta o discurso de crescimento. Ele apenas o traz de volta a uma escala mais crível.
Conclusão
Gary Cohn, ex-principal conselheiro econômico de Donald Trump e atual vice-presidente da IBM, acredita que a economia americana provavelmente não crescerá entre 4% e 5% neste ano, ao contrário do que sustenta a administração. Sua divergência é importante porque vem de alguém que conhece de perto o funcionamento da política econômica trumpista, ao mesmo tempo em que mantém uma visão relativamente positiva sobre vários motores de crescimento.
Cohn destaca a continuidade da geração de empregos, nichos de demanda ligados aos centros de dados, os potenciais ganhos de produtividade da inteligência artificial e o papel positivo do programa H-1B para o crescimento do PIB. Mas, na sua leitura, esses fatores não são suficientes para justificar as previsões mais agressivas.
Em resumo, sua mensagem é a de um otimismo moderado: a economia americana continua tendo pontos de apoio importantes, mas isso não significa que esteja entrando automaticamente em uma fase de crescimento excepcional. Entre a narrativa política de uma nova era dourada e a análise mais prudente dos fundamentos, Gary Cohn claramente escolhe a segunda.