Goldman Sachs vê oportunidade na Big Tech enquanto a guerra com o Irã pressiona as valuations
As grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos atravessam uma fase delicada há alguns meses, mas para o Goldman Sachs essa fraqueza pode justamente estar criando uma janela de entrada mais interessante para os investidores. Segundo os analistas do banco, a queda acentuada da Big Tech em 2026, agravada pela guerra com o Irã e por uma leitura mais cautelosa das perspectivas macroeconômicas globais, não representa necessariamente uma deterioração estrutural do setor. Ela reflete, antes de tudo, uma reavaliação das valuations depois de um período de forte entusiasmo.
Essa leitura importa porque vai contra parte do sentimento dominante no mercado. Desde o início do ano, muitos investidores passaram a olhar para os gigantes da tecnologia com mais desconfiança. Os gastos massivos em inteligência artificial, o aumento das incertezas geopolíticas, a tensão em torno dos juros e a rotação para setores de “velha economia” contribuíram para enfraquecer o apetite pelas grandes empresas de crescimento. Mas o Goldman Sachs entende que esse movimento corretivo está justamente recolocando os preços em um nível mais coerente com a expansão esperada.
Em outras palavras, o mercado já teria precificado uma parte relevante das preocupações. E, se os lucros continuarem sólidos, se as revisões de resultados seguirem positivas e se o ambiente de juros não evoluir para o pior cenário possível, então o setor pode voltar a parecer atraente bem mais cedo do que imaginam hoje os investidores mais prudentes.
O núcleo do argumento do Goldman é relativamente simples: a tecnologia continua sendo um setor em que as perspectivas de crescimento seguem fortes, mas em que as valuations agora estão menos esticadas do que estavam antes. E, em um mercado que busca continuamente pontos de entrada críveis, esse tipo de combinação naturalmente passa a chamar atenção.
Uma forte subperformance em 2026 que muda a leitura do setor
Um dos pontos de partida da análise do Goldman Sachs é a constatação de uma subperformance relativa importante das ações de tecnologia desde o começo de 2026. O setor sofreu mais do que o mercado mais amplo, o que transforma este período, segundo os analistas, em um dos piores momentos de desempenho relativo em décadas.
Essa mudança não é pequena. Durante muito tempo, os investidores se acostumaram a enxergar a Big Tech como o núcleo incontestável do crescimento bursátil mundial. As grandes empresas pareciam ter tudo: crescimento de lucros, domínio competitivo, capacidade de investimento, liderança tecnológica, força de balanço e exposição direta à inteligência artificial, tema dominante do mercado. Nesse quadro, as correções existiam, mas geralmente eram vistas como temporárias e rapidamente compradas.
O contexto agora é diferente. A forte alta anterior havia levado as ações de tecnologia a máximas recordes em outubro. Naquele momento, os investidores ainda aceitavam múltiplos elevados porque o crescimento parecia forte o suficiente para justificá-los. Mas, quando o mercado começou a se perguntar com mais seriedade sobre o custo da expansão em IA, sobre a sustentabilidade dos gastos com data centers e sobre um ambiente macroeconômico mais instável, a percepção mudou aos poucos.
A correção, portanto, não foi provocada por um colapso dos fundamentos. Ela foi, acima de tudo, alimentada por um ajuste na forma como o mercado passou a avaliar as valuations e a capacidade do setor de continuar absorvendo níveis tão altos de otimismo.
O peso dos gastos com inteligência artificial
Uma das razões centrais para essa mudança de tom vem justamente da questão dos investimentos. As grandes empresas de nuvem e infraestrutura digital assumiram compromissos enormes na área de IA, sobretudo com a expansão de data centers. Os investimentos acima de US$ 700 bilhões voltados a essa nova fase tecnológica começaram a levantar questionamentos.
Durante a fase inicial de entusiasmo com a IA, o mercado via esses gastos como o sinal de um gigantesco ciclo de investimento capaz de sustentar crescimento futuro. E isso ainda é verdade em parte. Mas, à medida que os montantes ficaram enormes, alguns investidores passaram a se perguntar se o retorno sobre esse capital não demoraria demais ou se não seria mais incerto do que parecia inicialmente.
Esse tipo de dúvida é clássico nos mercados. Quando um novo tema de crescimento aparece, os investidores premiam primeiro as empresas capazes de gastar rápido e forte para tomar a liderança. Depois, conforme o ciclo amadurece, eles se tornam mais exigentes. Já não basta falar em potencial. Eles querem entender como esse potencial vai se transformar em margens, fluxo de caixa e rentabilidade sustentável.
No caso da Big Tech, isso criou uma tensão inevitável. As empresas dominantes seguem sendo as melhores posicionadas para capturar a IA, mas são também justamente as que precisam investir mais para garantir essa liderança. Esse paradoxo ajuda a explicar a queda: o mercado não necessariamente desacreditou do tema, mas passou a recalibrar o preço que está disposto a pagar para ter essa exposição.
Goldman Sachs acredita que as valuations ficaram mais racionais
É exatamente aí que o Goldman Sachs vê uma oportunidade. Os analistas liderados por Peter Oppenheimer avaliam que, considerando o crescimento esperado pelo consenso, as valuations da tecnologia voltaram a ficar mais atraentes. Eles destacam inclusive que, em termos relativos, a valuation do setor agora caiu para abaixo da do mercado global agregado quando comparada às expectativas de crescimento.
Essa observação muda bastante a narrativa. Em períodos de exuberância, a crítica mais comum ao setor de tecnologia é que ele negocia caro demais, mesmo com crescimento forte. Se, ao contrário, as valuations voltam a níveis mais moderados enquanto as perspectivas de lucros permanecem sólidas, o debate muda. O setor deixa de parecer uma bolha intocável e volta a parecer uma área de crescimento que pode ser comprada a um preço mais razoável.
Isso é especialmente verdadeiro para algumas das maiores empresas do setor. O Goldman aponta que grupos como Meta Platforms, Microsoft e Nvidia agora negociam a menos de 20 vezes os lucros esperados para os próximos dois anos. Esse patamar está longe da imagem de um setor completamente fora de controle em termos de múltiplos.
Essa evolução se torna ainda mais relevante quando comparada a episódios históricos como a bolha da internet, quando as grandes tecnológicas negociavam com prêmios muito mais exagerados antes das grandes correções. O ambiente atual ainda é exigente, mas já não parece ter o mesmo grau de superaquecimento.
A guerra com o Irã funciona como catalisador da reavaliação
O conflito com o Irã adicionou mais uma camada de pressão aos mercados, inclusive sobre as ações de tecnologia. Desde o fim de fevereiro, a guerra contribuiu para aumentar o nervosismo dos investidores, sobretudo por meio da alta da energia, das pressões inflacionárias e do medo de um choque maior sobre o crescimento global. Em um ambiente assim, as ações mais sensíveis ao sentimento e mais amplamente carregadas naturalmente sofreram ajuste.
O ETF Roundhill Magnificent Seven, por exemplo, teria caído cerca de 5% desde o início do conflito. Esse número ilustra bem o fato de que mesmo gigantes considerados estruturalmente fortes não ficam imunes a uma releitura macroeconômica mais cautelosa.
Mas o Goldman Sachs vai além. Os analistas argumentam que, se a interrupção em torno do Estreito de Ormuz se prolongar, o choque pode passar a ser visto menos como um simples choque inflacionário e mais como um choque de crescimento. E essa distinção é fundamental.
Se o mercado passar a acreditar que a guerra pesa sobretudo sobre o crescimento global, isso pode acabar limitando a alta dos juros ou, no mínimo, reduzindo as expectativas de aperto adicional. E, em um cenário assim, a tecnologia pode até voltar a ser vista como relativamente defensiva.
Por que a tecnologia pode voltar a parecer defensiva
À primeira vista, essa ideia parece estranha. Normalmente, tecnologia é associada aos setores mais ligados ao crescimento e ao apetite por risco, não a uma postura defensiva. Mas o argumento do Goldman faz sentido em certas condições.
Os fluxos de caixa de muitas grandes empresas de tecnologia são relativamente menos sensíveis ao crescimento econômico imediato do que os de vários setores cíclicos. Seus modelos se apoiam muitas vezes em plataformas, assinaturas, ecossistemas de software, gastos digitais recorrentes ou posições dominantes em segmentos que já se tornaram quase indispensáveis. Isso não significa imunidade a qualquer desaceleração, mas significa que essas empresas podem, em certos momentos, resistir melhor do que setores mais expostos ao ciclo econômico clássico.
Além disso, se a alta dos rendimentos dos títulos parar ou começar a ceder, as ações de crescimento normalmente se beneficiam bastante. O mercado volta a valorizar com mais tranquilidade lucros futuros quando o custo do capital deixa de subir. Nesse quadro, uma guerra prolongada que passe a ser interpretada como freio ao crescimento — e, portanto, como limite à elevação dos juros — pode acabar recriando um ambiente mais favorável para a Big Tech.
Esse é um dos pontos mais sofisticados da análise do Goldman Sachs. O conflito com o Irã pressiona as valuations hoje. Mas, se ele acabar mudando a leitura do mercado para um cenário de crescimento mais fraco e juros menos agressivos, poderá indiretamente devolver suporte ao setor de tecnologia.
A rotação para setores de “velha economia” já aconteceu
Outro elemento importante da análise envolve a rotação do capital para setores mais tradicionais, frequentemente vistos como menos exigentes em valuation. Os investidores já deslocaram parte dos fluxos para empresas ligadas à energia, à infraestrutura, aos serviços públicos e à indústria manufatureira.
O Goldman Sachs observa, por exemplo, que sua cesta de ações chamadas HALO, concentrada em setores intensivos em capital como utilities e indústria, já subiu cerca de 11% neste ano. Esse movimento reflete a convicção do mercado de que a nova fase econômica vai exigir mais gasto físico: energia, redes, infraestrutura, data centers e capacidade industrial.
Esse deslocamento de capital pesou sobre a tecnologia, mas também gerou um efeito colateral importante: reduziu o excesso de pressão compradora que antes estava concentrado sobre as grandes ações de crescimento. Em outras palavras, a rotação machucou os preços, mas também ajudou a limpar parte do posicionamento exagerado.
E é justamente esse tipo de ajuste que o Goldman parece querer explorar. Quando o mercado já se afastou parcialmente do setor, os múltiplos recuaram e os lucros seguem sólidos, o ponto de entrada volta a parecer mais crível para investidores com visão de médio prazo.
Os fundamentos não parecem quebrados
Um dos argumentos mais relevantes do Goldman Sachs é que, apesar da queda das ações, os fundamentos do setor continuam, em grande parte, preservados. Peter Oppenheimer destaca alguns elementos centrais: as grandes empresas de tecnologia continuam apresentando forte crescimento de lucros, revisões positivas de resultados e retorno elevado sobre o patrimônio.
Em outras palavras, a queda do setor não estaria refletindo uma deterioração profunda dos fundamentos, mas um ajuste de valuation em um ambiente mais complexo. Essa nuance é crucial. Quando os fundamentos realmente quebram, as correções podem durar muito tempo. Quando se trata principalmente de um recalibramento do preço pago pelo crescimento, o mercado costuma se reorganizar mais rápido.
Isso não significa que toda Big Tech deva ser comprada sem critério. Significa apenas que o setor voltou a ficar mais interessante para análise séria, porque combina boas perspectivas operacionais com níveis de preço considerados menos excessivos.
Conclusão
O Goldman Sachs entende que a fraqueza recente da Big Tech pode estar transformando o setor em uma oportunidade de compra mais crível. A correção de 2026, amplificada pela guerra com o Irã, pelos gastos elevados com IA e pela rotação para setores tradicionais, pressionou as valuations. Mas, segundo os analistas, essa queda não necessariamente sinaliza uma fraqueza estrutural mais profunda.
Ao contrário, as grandes empresas de tecnologia parecem agora negociar em níveis mais razoáveis em relação ao crescimento esperado, com múltiplos bem abaixo dos observados em fases de sobreaquecimento do passado. Se os lucros seguirem fortes, se as revisões não piorarem e se o mercado começar a enxergar o conflito mais como choque de crescimento do que como simples choque inflacionário, então a tecnologia pode até voltar a desempenhar um papel mais defensivo do que muitos imaginam.
Em resumo, o Goldman não está dizendo que o risco desapareceu. Está dizendo que o mercado já corrigiu bastante e que essa própria correção começa a tornar a Big Tech novamente atraente para investidores capazes de olhar além do nervosismo imediato.