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 Guerra no Irã dá um forte golpe na economia global, e ninguém escapa dos danos quanto mais ela durar

Guerra no Irã dá um forte golpe na economia global, e ninguém escapa dos danos quanto mais ela durar

Um mês após o início da guerra no Irã, a economia global já não está lidando com um susto geopolítico temporário. Está lidando com um choque econômico crescente, que se espalha pelos mercados de energia, pelos sistemas alimentares, pelas cadeias de suprimento, pelas expectativas de inflação, pelas contas públicas e pela confiança do consumidor. O conflito já elevou fortemente os preços do petróleo, desorganizou fluxos comerciais, abalou as bolsas e forçou governos de países mais pobres a racionar combustível, subsidiar energia e improvisar respostas de emergência apenas para manter a vida cotidiana funcionando.

O problema mais profundo é que a guerra já não ameaça apenas preços. Ela está destruindo infraestrutura. E isso muda tudo. Um conflito curto pode provocar um pico temporário no petróleo, pânico nos mercados e estresse no transporte. Mas, quando refinarias, oleodutos, instalações de gás, terminais de navios-tanque e a logística ligada a eles passam a ser efetivamente atingidos, as consequências econômicas ficam mais difíceis de reverter e muito mais propensas a durar. É por isso que economistas estão se tornando mais alarmados. A questão já não é apenas volatilidade. É duração.

Christopher Knittel, economista de energia do MIT, resumiu bem essa mudança ao dizer que, uma ou duas semanas antes, os impactos de longo prazo ainda poderiam parecer limitados caso a guerra tivesse terminado imediatamente. Mas agora, com a infraestrutura energética sendo destruída, os efeitos provavelmente serão duradouros. Essa avaliação combina com o que os mercados estão começando a entender: mesmo que os ataques terminassem em breve, o processo de recuperação econômica não seria rápido.

O impacto da guerra agora alcança quase todas as camadas da economia mundial. O petróleo está mais caro. Fertilizantes estão mais escassos. O fornecimento de hélio está ameaçado. As viagens aéreas ficaram mais caóticas. Os riscos de inflação estão subindo. As projeções de crescimento estão enfraquecendo. E o peso maior recai sobre países e famílias com menos capacidade de absorver o choque. O resultado é uma economia global pressionada por vários lados ao mesmo tempo, com pouquíssimas rotas de saída fáceis.

O choque do petróleo virou o centro da crise econômica

A consequência econômica mais imediata e mais visível da guerra foi o choque energético. O Irã respondeu aos ataques dos Estados Unidos e de Israel iniciados em 28 de fevereiro fechando, na prática, o Estreito de Hormuz ao tráfego normal de navios-tanque, ameaçando embarcações que tentavam cruzar uma das passagens comerciais mais importantes do mundo. Isso importa porque cerca de um quinto do petróleo global e uma parcela relevante do gás natural liquefeito normalmente passam por esse corredor.

Assim que o acesso a essa rota ficou severamente comprometido, as consequências foram imediatas. Exportadores do Golfo, como Kuwait e Iraque, passaram a ter menos meios de escoar petróleo, e cortes de produção vieram em seguida porque simplesmente não havia para onde parte desse petróleo iria. A Agência Internacional de Energia descreveu a perda de cerca de 20 milhões de barris por dia como a maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo.

Essa linguagem é extraordinária, e a reação dos preços também. O Brent fechou a sexta-feira em US$ 105,32, enquanto o petróleo americano terminou em US$ 99,64. Antes da guerra, o Brent estava em torno de US$ 70. Isso não é um movimento comum. É o tipo de choque que afeta imediatamente combustíveis, transporte, custos industriais, sentimento do consumidor e inflação em vários continentes.

Para as famílias, o efeito é dolorosamente simples. Abastecer o carro custa mais. Aquecimento e eletricidade ficam mais caros. Empresas pagam mais para transportar mercadorias. Companhias aéreas pagam mais por combustível. A produção de alimentos fica mais cara. Um petróleo mais alto funciona como um imposto que se espalha pela economia, só que, ao contrário de um imposto, ele é provocado pela guerra e oferece pouquíssimo controle de política econômica.

Um conflito prolongado aumenta o risco de recessão e estagflação

Historicamente, grandes choques do petróleo costumam ser seguidos por recessões, e economistas estão voltando a falar disso com mais clareza. Knittel alertou que choques de preço como esse repetidamente levaram a recessões globais. Carmen Reinhart, de Harvard, resumiu o perigo de forma igualmente direta: a guerra está aumentando o risco de inflação mais alta e crescimento mais fraco.

Essa combinação traz de volta uma das palavras mais temidas da economia: estagflação.

A estagflação é especialmente assustadora porque cria uma armadilha de política econômica. A inflação já é ruim. A recessão também é ruim. Mas, quando as duas acontecem juntas, os bancos centrais perdem margem de manobra. Eles não conseguem cortar juros com facilidade para apoiar a economia se a inflação continuar sendo empurrada para cima pela energia. Os governos podem até tentar proteger consumidores, mas isso normalmente significa maior pressão fiscal justamente quando os custos já estão subindo. Empresas enfrentam demanda mais fraca e custos mais altos ao mesmo tempo. Trabalhadores veem sua renda real ser comprimida mesmo quando salários nominais sobem.

É por isso que a memória dos anos 1970 reapareceu no debate em torno da guerra. Naquela época, o petróleo também estava no centro da crise. O episódio enfraqueceu crescimento, reduziu padrões de vida e gerou instabilidade prolongada. A situação atual não é idêntica, mas a semelhança já é suficiente para deixar investidores e formuladores de política econômica nervosos.

Gita Gopinath, ex-economista-chefe do FMI, escreveu recentemente que o crescimento global, antes esperado em 3,3% neste ano, poderia ficar 0,3 a 0,4 ponto percentual mais baixo se o petróleo ficasse em média em US$ 85 por barril em 2026. Como o petróleo já está acima de US$ 100, essa estimativa mostra o quanto a economia global continua sensível a estresse energético prolongado.

O mercado de fertilizantes está apertando, e os alimentos podem ser os próximos

Um dos efeitos mais importantes e menos visíveis da guerra está no mercado de fertilizantes. O Golfo Pérsico é grande exportador de componentes essenciais, incluindo cerca de um terço da ureia global e um quarto da amônia. Os produtores da região têm uma vantagem: acesso fácil a gás natural barato, principal insumo dos fertilizantes nitrogenados.

Até 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo Estreito de Hormuz. Quando essa rota é bloqueada ou severamente comprometida, os fluxos apertam rapidamente. Desde o início da guerra, os preços da ureia subiram 50% e os da amônia 20%. Isso não é um problema de commodity de nicho. É um problema de comida.

O Brasil está especialmente vulnerável porque importa cerca de 85% de suas necessidades de fertilizantes. O Egito, embora seja grande produtor, também sofre porque depende de gás natural para fabricar o produto e enfrenta problemas quando o acesso ao gás se aperta. Com o tempo, fertilizantes mais caros tendem a forçar agricultores a usar menos, o que significa menor produtividade e, mais adiante, preços mais altos para os alimentos.

É assim que uma guerra centrada no Golfo acaba aparecendo no preço do supermercado em lugares muito distantes. O dano pode não ser imediato em todos os países, mas vai se acumulando. Agricultores sob pressão nem sempre cortam plantio, mas frequentemente reduzem o uso ideal de insumos. Depois vem a menor produtividade. E, por fim, uma oferta de alimentos mais apertada. Em países mais pobres, onde as famílias já gastam parcela maior da renda com alimentação, esse impacto pesa mais e chega mais rápido.

Hélio, chips e o golpe menos visível na economia da tecnologia

O petróleo domina as manchetes, mas a guerra também está atrapalhando o fornecimento de hélio, algo muito mais importante do que parece. O Catar produz hélio em Ras Laffan e responde por cerca de um terço da oferta mundial. O hélio é subproduto da produção de gás natural e é essencial para fabricação de semicondutores, equipamentos médicos, foguetes e outros usos industriais avançados.

Isso transforma a guerra em uma ameaça pouco percebida para as cadeias de suprimento de tecnologia. Em um momento em que os investimentos em IA estão ajudando a sustentar partes importantes do mercado americano e do otimismo industrial, a pressão sobre o hélio vira um problema real. Chips não dependem apenas de software ou de gastos com data centers. Eles também dependem do funcionamento fluido de cadeias físicas altamente especializadas.

Se o fornecimento de hélio continuar prejudicado, esse passa a ser mais um canal pelo qual a guerra eleva custos e desacelera a produção em setores estrategicamente importantes. Isso também mostra por que esse conflito já não é só uma crise de energia. É um choque industrial mais amplo, capaz de atingir justamente as indústrias nas quais investidores vinham apostando para sustentar crescimento.

Países mais pobres já estão racionando energia e mudando a vida cotidiana

Fatih Birol, da Agência Internacional de Energia, alertou em 23 de março que nenhum país ficaria imune aos efeitos da crise caso ela continuasse nessa direção. Ainda assim, países mais pobres estão claramente mais vulneráveis.

Lutz Kilian, do Fed de Dallas, observou que essas economias provavelmente sofrerão as maiores escassezes porque simplesmente serão superadas em preço quando disputarem o petróleo e o gás remanescentes. Isso já é visível nas respostas de política econômica pela Ásia, região especialmente exposta porque mais de 80% do petróleo e do GNL que passam por Hormuz seguem para lá.

Nas Filipinas, órgãos do governo agora funcionam apenas quatro dias por semana, e servidores foram obrigados a manter o ar-condicionado em no mínimo 24°C. Na Tailândia, funcionários públicos foram orientados a usar escadas em vez de elevadores para economizar energia. Na Índia, o governo está priorizando o acesso das famílias ao gás liquefeito de petróleo usado para cozinhar e absorvendo boa parte da alta de preços para proteger famílias pobres. Mesmo assim, a escassez já levou alguns restaurantes a reduzir horários, fechar temporariamente ou retirar pratos que exigem mais energia para preparo.

A Coreia do Sul, outro grande importador de energia, restringiu o uso de carros por servidores públicos e reintroduziu controles de preço de combustíveis que haviam sido abandonados décadas atrás. Essas são medidas típicas não de um mercado apenas volátil, mas de um ambiente em que governos temem que os mecanismos normais de preço já não sejam suficientes para preservar a estabilidade econômica e social.

Nem os Estados Unidos estão realmente protegidos

Os Estados Unidos estão em posição melhor do que muitos países, mas não estão imunes. O país exporta petróleo, então suas empresas de energia se beneficiam de preços mais altos. Também enfrenta preços domésticos de GNL menores do que outras regiões porque sua capacidade de liquefação para exportação já está no limite, o que faz mais gás ficar no mercado interno.

Mas isso não protege o consumidor americano da dor no posto. Dados da AAA mostram a gasolina média nos EUA subindo para quase US$ 4 por galão, ante US$ 2,98 um mês antes. Mark Zandi, da Moody’s Analytics, resumiu bem: poucas coisas pesam tanto sobre a psicologia do consumidor quanto pagar mais para abastecer.

E isso importa porque a economia americana já mostrava sinais de enfraquecimento antes de a guerra se intensificar. O crescimento havia desacelerado de forma significativa, empregadores cortaram inesperadamente 92 mil vagas em fevereiro, e a média mensal de criação de empregos em 2025 estava em apenas 9.700, o ritmo mais fraco fora de recessão desde 2002. Gregory Daco, da EY-Parthenon, agora elevou a chance de recessão nos EUA nos próximos doze meses para 40%, bem acima do nível normal de cerca de 15%.

Em outras palavras, a guerra está atingindo uma economia que já era mais frágil do que o otimismo das manchetes fazia parecer.

A recuperação será lenta mesmo nas melhores condições

Uma das verdades mais difíceis para os mercados aceitarem é que, mesmo com cessar-fogo, a normalidade não voltaria rapidamente. Danos às instalações de GNL no Catar podem levar anos para serem reparados. Refinarias em países como Kuwait também precisarão de tempo. Navios-tanque precisarão ser consertados, reabastecidos e preparados novamente para operar. O mercado de seguros precisará recuperar confiança. O transporte marítimo não voltará ao normal de um dia para o outro.

A economia mundial mostrou grande resiliência diante da pandemia, da invasão da Ucrânia pela Rússia, da inflação elevada e dos juros agressivos usados para combatê-la. Esse histórico gerou a esperança de que também pudesse absorver a guerra no Irã. Mas essa esperança está enfraquecendo à medida que os danos físicos à infraestrutura do Golfo aumentam.

Lutz Kilian alertou que o processo de recuperação será lento mesmo nas melhores circunstâncias possíveis. Talvez essa seja a conclusão econômica mais importante de todas. A questão já não é mais saber se esse conflito importa. É quanto dano irá se acumular antes que ele termine, e quanto tempo o mundo precisará para se reconstruir depois.

Conclusão

A guerra no Irã já deu um golpe profundo na economia global, e, quanto mais ela durar, mais universal tende a ser o dano. O petróleo disparou. O mercado de fertilizantes está apertando. O fornecimento de hélio está sob pressão. As viagens aéreas foram desorganizadas. Os riscos de inflação voltaram a subir. Os mercados estão enfraquecendo. Países mais pobres estão racionando combustível e mudando rotinas diárias para conseguir lidar com a situação.

O que torna esse conflito tão perigoso economicamente é que ele atinge ao mesmo tempo preços e oferta física. Essa combinação é o que transforma volatilidade em dano duradouro. Isso significa que a guerra não está apenas tornando as coisas mais caras. Ela está ameaçando tornar algumas coisas mais difíceis de obter.

Nenhum país está totalmente intacto. Alguns sofrerão antes, e alguns sofrerão muito mais do que outros, mas a direção geral já está clara. A economia global levou um golpe duro, e, a menos que haja uma desescalada significativa e rápida, esse golpe provavelmente vai se aprofundar e se transformar em algo muito mais duradouro.

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